Entrevistas Universo da Cerveja

Marketing e Publicidade na Cerveja, com Salo Maldonado – Parte 2

SEGUIR NO INSTAGRAMPowered by Rock Convert

Na primeira metade desta entrevista com Salo Maldonado (na foto, em pleno St. Patricks Day), ele falou sobre a realidade do mercado de cervejas artesanais no Brasil. Especialista em Comunicação Social, com foco em Publicidade e Propaganda, ele aponta algumas palavras de ordem para os profissionais do meio: criatividade, vontade e investimento.

Na parte final, vamos conversar sobre a importância da internet para este mercado. Afinal, qual a relevância dos blogs atuais? “Acredito que os Bloggers tem poder para recrutar mais pessoas do que fazem hoje em dia”, afirma ele. Recentemente, foi criado um grupo que uniu os blogueiros brasileiros de cerveja, o BBC, do qual o Homini Lúpulo se orgulha de ser um dos criadores. Juntos, criamos uma campanha experimental, que colocou o #cervejadeverdade nos TT Br durante uma sexta-feira inteira e até hoje é lembrado por muitos cervejeiros nacionais. E é sobre isto que começamos a segunda parte da entrevista com o empresário e publicitário Salo Maldonado.

Homini Lúpulo – Voltando a falar de redes sociais, você chegou a acompanhar a campanha #cervejadeverdade? Qual a importância que você vê nos bloggers de cerveja?

Salo Maldonado – Acompanhei a campanha, sim, e tentei ao máximo participar dela através do Twitter do BeerJack. Acho que é importante ter uma rede de difusão de informações sobre cervejas artesanais e caseiras. Os Blogs hoje estão bem focados em divulgar notícias e informações sobre cervejas, rótulos e estilos, mas acredito que seu efeito ainda está aquém do desejável. Queria vê-los atraindo milhares de pessoas para conhecer cervejas importadas e artesanais, mas muitos só repassam informações e opiniões sem base empírica, baseados em seus pensamentos individuais.

Não digo isso dos Blogs pessoais, mas também dos corporativos que são mais limitados ainda em termos de conteúdo. Não posso medir o efeito real de campanhas de internet como o #cervejadeverdade ou outra que ameaçou surgir: o Skol não é Pílsen. Acredito que há muita gente se achando especial demais por tomar cerveja importada e acha que deva “resgatar as almas condenadas pela Skol”. Não se convence ninguém a mudar seus hábitos chamando-o de ignorante. Temos que mostrar as diferenças e apresentar toda a complexidade da CERVEJA. Falar que Skol não é Pilsen pode soar como choramingo, resmungo de gente chata. Falar que a Pilsener Urquell é a Pilsen de verdade ou original tem um efeito mais visível e mensurável.

 

HL – Os blogs de maior visibilidade no Brasil ainda são amadores, ou pelo menos o blog não é a fonte de renda principal dos autores. Da mesma forma, não vemos as cervejarias e distribuidoras investindo em comunicação. Estamos num ciclo vicioso, mas como quebrá-lo?

SM – Algumas distribuidoras investem em degustações em bares e lojas para atrair o público, mas as cervejarias estão acomodadas. O mercado está aquecido e parte delas está vendendo tudo o que produz. Só se quebra esse ciclo com alguma cervejaria tentando revolucionar seu mercado ou uma distribuidora focada em Marketing. É um binômio de vontade e investimento. Parte das cervejarias está muito acostumada com ferramentas tradicionais de comunicação e esquecem que há formas eficientes e baratas de divulgar seus produtos.

 

Para mim, o foco de parte das cervejarias nacionais está em empurrar a cadeia de consumo, ou seja, vender o que pode para os varejistas, dar meia dúzia de copos e rezar para que suas cervejas sejam vendidas. Não há investimento na comunicação puxada, atrair o consumidor a beber as cervejas e deixar que ele se torne um multiplicador. Novamente, vontade e investimento.

 

HL – E vemos que isso já não é o que acontece em uma das cenas mais efervescentes da cerveja atualmente, os EUA. Prova disso foi a missão da Brewers Association no Brasil mês passado, representando e apresentando diversas novidades para o mercado daqui. E iniciativas como estas não são vistas aqui no Brasil, inclusive no lançamento de novos produtos, onde normalmente se investe mais em publicidade. Com novas marcas chegando o tempo todo e poucas marcas bem trabalhadas, pode-se esperar por uma bolha cervejeira?

SM – Não esperaria por uma bolha, mas em termos de mercado, acho que as algumas cervejarias estão de olhos coloridos abrindo espaço para empresas mais oportunistas entrarem e fazer o que não se faz hoje em dia. Vejo muitos tapinhas nas costas e auto-congratulações, mas pouco esforço de posicionamento. Nem todas as cervejas produzidas são de nicho, poucas são competitivas quando comparadas ao número de cervejarias que vem surgindo.

HL – E, Salo, para terminar, como você vê o futuro para o mercado nacional de cervejas artesanais?

SM – Acredito que o mercado de cervejas artesanais vá continuar crescendo e as cervejas brasileiras continuarão a conquistar crescentes fatias do faturamento. Contudo, acredito que a diferenciação se tornará mais necessária na fase de amadurecimento. Isso não se limita a uma bela embalagem ou copos com a marca, as empresas deverão investir em distribuição, produção e comunicação com o consumidor final.
O mercado, como o ambiente, estará mais atraente para os mais adaptados à sua realidade. Partirá dos gestores destas organizações a adaptação de seus organismos corporativos para melhor competir num mercado crescente e com número maior de concorrentes a cada dia.

 

O objetivo do debate neste tema é pensarmos um pouco além da produção cervejeira. Claro, estamos pensando em qualidade e ela começa pelo líquido maravilhoso que tanto amamos. Mas, se as pessoas não percebem esta diferença de outras formas, fica mais difícil que se dê uma chance ao novo. O crescimento do mercado não depende apenas da qualidade da cerveja, mas como qualquer negócio, de toda a parte administrativa, marketing e distribuição. A qualidade é o início, é a base, a premissa principal. Mas sem todo o resto, perde-se mercado para produtos de qualidade inferior que trabalham com eficiência estas questões. Nas duas entrevistas, tanto com Salo Maldonado quanto com Armando Fontes, fica evidente que o mercado está em franca evolução e ainda não encontrou uma identidade e maneira de comunicar seus produtos própria, brasileira. Mas, essa estrada é um caminhar sem fim, sempre em evolução.

aprender a fazer cerveja em casaPowered by Rock Convert

Sobre o Autor

Carlos Lara

Marketeiro e cervejeiro de buteco. Criei a minha paixão pela cerveja há um tempo, principalmente vendo jogos de futebol e tomando uma boa cerveja com o meu pai, e hoje escrevo conteúdos sobre diversos assuntos nas horas vagas.

Comentar