Entrevistas

Marketing e Publicidade na Cerveja, com Salo Maldonado – Parte 1

Para debater sobre marketing e design no mercado de cervejas artesanais convidamos Salo Maldonado. Formado em Publicidade e Propaganda, ele atua em diversas frentes no mercado cervejeiro, de empresário a distribuidor. Hoje, ele é um dos sócios do BeerJack, loja com vasta carta de cervejas nacionais e importadas, que também oferece cursos e degustações e que está sendo ampliada.
No próximo mês, Salo defende sua tese de mestrado na UFRJ com o tema “entrada das cervejarias estrangeiras no Brasil”. Desde 2007, ele se encantou por cervejas especiais: “Comecei tímido com Erdingers, mas dava preferência aos Destilados. A cerveja começou a me conquistar com a Old Speckled Hen e me apaixonei ao tomar a Strong Suffolk. Hoje, faço cerveja, bebo, estudo e trabalho com cerveja”. 

Acreditando que as cervejarias nacionais vivem um momento do mercado muito aquecido, ele aponta o caminho para o crescimento após este momento inicial: “A resposta resume-se a uma palavra: criatividade. Criatividade em termos de produto, mídias e posicionamento.”

Homini Lúpulo – Salo, como um profissional de comunicação enxerga o atual momento da cerveja artesanal no Brasil?
Salo Maldonado – Como uma grande oportunidade de promover produtos de alta qualidade, mostrar diferenças e apresentar ao público uma “cerveja” diferente da maioria que observamos e consumimos por grande parte de nossas vidas. É uma chance de criar novos fenômenos de venda e de público, novos produtos que podem conquistar uma parcela do mercado que não se contenta com produtos “redondos”. 

HL – Mas a cerveja artesanal ainda está muito atrás dos produtos de massa em termos de marketing e propaganda. Como o produtor pode comunicar esta diferença de qualidade, mesmo com uma verba infinitamente inferior?

SM – Acredito que uma estratégia de comunicação bem elaborada, com uso pesado de mídias sociais e internet podem auxiliar muito estes produtores. A educação é a maior arma deles na luta contra orçamentos milionários em publicidade. Ademais, essa ferramenta anda perdendo força, pois é criada por profissionais, pessoas dedicadas a convencer e persuadir de que aquele produto é o melhor. A comunicação boca-a-boca está ganhando muita força. Como usar o boca-a-boca para dezenas ou centenas de pessoas ao mesmo tempo? Mídias sociais, como afirmado acima.

Um produto de excelente qualidade é imprescindível e gostaria muito de ver cervejarias nacionais inovando mais. A maioria cai numa mesmice. Se a estratégia delas é diferenciação de produto, que façam o DIFERENTE – sem cair no óbvio. Minha opinião é que deve haver um investimento em identidade visual, já que muitas das cervejarias artesanais tem embalagens pobres, com elementos soltos ou com significância limitada. O mercado está crescendo e há espaço para todas, porém em um mercado maduro é importante destacar-se visualmente também.

HL – E você, Salo, além de ser um profissional de comunicação, atua como distribuidor e mais recentemente como dono de bar/loja de cervejas artesanais. Você , no dia-a-dia, percebe as pessoas enxergando esta mesma lacuna visual? Como o cliente que busca algo especial, diferente, reage aos que hoje o mercado nacional oferece?

SM – O cliente é atraído diretamente por rótulos bonitos. O posicionamento na prateleira influencia também. Uma embalagem atraente tem uma força grande em capturar a atenção de quem passa. Deixo as cervejas expostas no Beerjack (foto abaixo) como principal cardápio para ver a reação dos consumidores à elas. Olhar para uma parede cheia de garrafas de cerveja é impactante, e as cervejas nacionais, com algumas exceções, pecam nesse impacto. São embalagens mal-formuladas, algumas ruins de serem lidas e com cores diversas. Gostaria de ver uma marca brasileira com força em termos de design e identidade visual.

HL – A ousadia que já vemos nas receitas ainda não são vistas na marca. Os nano produtores de cerveja, porém, tem rótulos e nomes mais diferenciados. Como você vê a entrada deles no mercado?

SM – Acho legal as receitas mais extremas e criativas que algumas nanocervejarias como a Bodebrown vem criando. Nós, brasileiros, somos criativos por natureza, por que quereríamos ficar copiando os estilos dos outros? Inovação foi o que impulsionou os movimentos de homebrewing nos EUA e na Itália. É claro que o governo desses países tem uma parcela de contribuição, pois criou incentivos fiscais e legais para fomentar o mercado.

HL – Mas e como fica a questão legal, já que muitos não tem CNPJ?

SM -Eu sou um pouco mais conservador. Eu acho importante estar de acordo com as leis, ter documentação e ser registrado. É verdade que muitas leis estão equivocadas e dificultam a vida destes produtores, mas vender produtos sem registro não é a solução. O movimento micro-cervejeiro surgiu nos EUA com uma vertente política também, de alterar as regras e ajustar leis de acordo com a necessidade dos produtores. Não devemos nos escusar de lutar por mudanças através da venda sem registro. Acho que empresas sérias não devem ficar à margem das leis.

Na segunda parte da entrevista com Salo Maldonado, falaremos sobre a importância de blogs e iniciativas para expandir o mercado. As cervejas artesanais nacionais estão cada vez melhores, mais complexas. E nós queremos promover o debate sobre o que vai por fora da garrafa: design, marketing, distribuição. Afinal, no mercado atual,não basta ter apenas qualidade, acreditamos que isto é apenas um ótimo começo.

Sobre o Autor

Carlos Lara

Marketeiro e Sommelier de Cerveja. Criei a minha paixão pela cerveja há um tempo, principalmente vendo jogos de futebol e hoje escrevo conteúdos sobre diversos assuntos nas horas vagas.

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