Entrevistas Universo da Cerveja

Entrevista Carlos Magno – Magnus Beer

Escrito por Carlos Lara
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Continuando nossa série sobre o mercado cervejeiro, trazemos agora esta entrevista com Carlos Magno, um cervejeiro caseiro que após muita luta conseguiu criar sua cervejaria. Com sócios, ele abriu a Magnus Beer em Socorro, interior de São Paulo, e hoje produz diversos estilos baseados em suas receitas caseiras, como a English Pale Ale e a Red Ale.

 

Desde suas primeiras levas, em 2007, Carlos vislumbrou a possibilidade de lucro, e ao mesmo tempo, paixão pela produção. Foi, então, uma longa busca para conseguir realizar seu sonho e dar escala para suas produções. Conheça a emocionante história deste cervejeiro:

 

 

Homini lúpulo – Quando começou a fazer cerveja caseira, havia algum pensamento em comercializar, em ser dono de cervejaria?

Carlos Magno – Meu primeiro contato com este universo foi no curso do Afonso (Landini, de A Turma, de Campinas) no Tortula, em 2007. No próprio curso vislumbrei que seria uma grande possibilidade de ganho. Fiz minha primeira brassagem de 20 litros e ouvi opiniões de vários amigos que gostaram. Fiz a segunda brassagem, ofereci para vender no Tortula, em São Paulo. O Afonso Landini, meu irmão, me ajudou demais. Quando eu fui aumentar a fabricação para 100 litros, não tinha o dinheiro para comprar as panelas. Ele e a Priscila  doaram para mim as panelas de 100 litros e os insumos. Comprava tudo que precisava e pagava quando dava, devo muito ao dois. Desde então comecei a pesquisar sobre cerveja artesanal e micro cervejaria, e busquei melhorar a cada brassagem. Tortula passou a ser minha vitrine. Comecei a ganhar dinheiro e resolvi naquele momento que iria viver da cerveja e sonhando com minha cervejaria com o nome que ela tem hoje, que é meu nome.

 

HL – Por que decidiu abrir a Magnus Beer?
CM – Cara, eu nunca gostei de trabalhar como empregado, tive três negócios anteriores e quebrei três vezes. O fator empreendedorismo tá no sangue, nunca tive medo de arriscar. Se errei, tiro as lições boas e parto para outra. Mas fiquei tão maravilhado com o aprendizado que a cerveja artesanal me mostrou que apaixonei! Em paralelo, conheci a Acerva Paulista bem no inicio de sua fundação. Fiquei duplamente apaixonado, hoje sou sócio vitalício por eleição da diretoria, da qual fiz parte por mais ou menos dois anos. Eu tenho uma grande admiração e respeito por todas as Acervas e costumo chamar o pessoal de adoráveis loucos.

 

HL- Como foi o processo inicial, de levantamento de custos, escolha de lugar, definição da escala de produção, capitalização?
CM – Eu acho que o universo conspira a favor dos que sonham e trabalham. Eu não planejei os custos exatos, eu cheguei no limite do que eu poderia fabricar na panela 100 litros e comecei a disparar em todo o lugar que precisava de uma micro cervejaria, tudo que fabricava eu vendia. Mostrava meu produto, conversei com vários investidores, sempre me mostrei solícito que alguém investisse em qualquer volume acima do que eu fabricava. Cheguei a ir até a cidade de Pompéia a 700 Km de São Paulo para pedir para o Edinho, dono da MecBier, uma cozinha de 250 litros com três tanques de 500 litros com alienação para pagamento quando iniciasse a venda da cerveja. Claro, ele nunca me retornou, mas não desanimei. Minha esposa foi fundamental neste processo, sempre me dava força e me ajudava a bancar estas loucuras. Sonho não tem dimensão, não tem lugar definido e não tem valores, ele acontece de forma inesperada. Digo isso porque comecei minha cervejaria com meus últimos mil reais em 2007. Já estava quebrado pela terceira vez. Hoje, a Magnus tem um investimento real de quatro milhões de reais, entre planta fabril e edificações com a capacidade total instalada de 50.000 litros mês. Tenho capacidade ociosa ainda de 30.000 litros, mas venho crescendo a cada mês.

 

HL – Como conseguiu o investimento inicial para a Magnus Beer?

CM – No inicio do ano de 2010 fui ao lançamento da sede oficial da Acerva Paulista que foi no Bar Brejas, lá encontrei o João Egidio de Souza Ferraz, que estava prospectando para abrir uma cervejaria. Ele vem de uma família aqui de Socorro que fabricava refrigerante, e me convidou para vir a Socorro conhecer o Antonio de Pádua Andrade Junior, o sócio investidor. Depois de uma sabatina de quase 6 horas, voltei para São Paulo e começamos uma negociação do contrato societário que durou três meses, até que no final de maio deste mesmo ano mudei para Socorro e começamos a montagem da cervejaria. Tanto o Egidio quanto o Junior deram uma força muito grande e acreditaram no meu trababalho para concretização deste sonho. Gostaria de deixar aqui os meus sinceros agradecimentos aos dois.

 

Magnus Beer: capacidade instalada para 50 mil litros (foto Concerva)

HL – Muito se fala sobre as dificuldades burocráticas. Afinal, há mesmo grandes entraves? Como foi com a Anvisa, prefeitura e o MAPA?
CM – Se eu for explicar este item aqui o texto ficaria muito longo. Para resumir, posso dizer que difícil é, impossível não. Principalmente quando se é leigo e não conhece o caminho das pedras. Eu penei para apreender. O único modo de não sofrer muito é contratar uma consultoria. Quando se fala em micro não é só fabricar, tem um monte de detalhe que foge ao nosso controle, eu tive experiências bem amargas.

 

HL- E hoje, como está a Magnus no mercado? Quanto estilos estão produzindo?
CM – Estamos em fase de crescimento, a Micro Magnus é novinha. Nosso start-up foi em dezembro de 2010, nosso crescimento é persistente mês a mês, mas como nada é facil, para testar nossa persistência em 17/01/ 2011 tivemos uma enchente aqui as 3h da madrugada. A água subiu 1,60m perdemos 3 mil kilos de malte pilsen, 250 kilos de pale ale e 150 kilos de carahell. Só para tirarmos o barro da enchente demorou um mês, e depois para colocarmos os equipamentos em funcionamento mais dois meses. Hoje a Cervejaria Magnus Prime Beer conta com quatro estilos em seu portfólio Pilsen, Bohemian Pilsener, Pale Ale e Red Ale.

 

Carlos Magno e hoje a realidade: escala comercial e equipamentos de primeira linha

HL – Como é a rentabilidade da cervejaria, está satisfeito ?
CM – Quanto à rentabilidade, hoje ela é baixa devido ao cenário tributário em que vivemos. Tudo depende de sua fama e penetração no mercado, eu diria que leva em media de dois a três anos para começar a respirar um pouquinho. Se estou satisfeito ? Não e acho que nunca vou estar! Se você se satisfaz, você se acomoda e não é o meu caso. É a paixão que me move. Nunca vou aceitar a Magnus ser uma cervejaria medíocre. No mínimo ótima, no máximo excelente.

 

HL – Qual é o sentimento por ter transformado este sonho numa realidade?
CM – Paixão ao extremo chega a doer, mas é uma dor do bem, não mata. Cara, quando eu olho para trás eu choro, de coração é uma sensação inexplicável só de escrever estas palavras a lagrima corre, eu acho que eu não conseguiria falar para as pessoas sobre esta paixão sem chorar. É muito sangue, suor e lágrima. Muita gente no passado já me chamou louco, sonhador, vagabundo etc, etc, etc…

 

HL- Que dica daria a quem pensa em se aventurar no mercado de cervejas no Brasil?

CM –  1º Trabalhe muito, faça no mínimo 100 brassagens de cerveja na panela. Você vai conhecer bem os produtos que vai trabalhar, a transformação do mosto e ganhar know-how para não desistir quando o bicho pegar na sua cervejaria.

 

2º Estude, fale, ouça, pergunte tudo sobre cerveja, 26 horas do dia de 24 e mesmo assim você vai ter só uma base, uma vida é pouco para apreender.

 

3º Apaixone-se, ame tanto o assunto que você precisa se tornar um chato. Com o tempo a gente apreende a dosar está chatice.

 

4º Procure informações sérias de boa procedência ou cerque-se de pessoas competentes e responsáveis que vão agregar ao seu negocio. Cervejaria tem muita coisa para nos ensinar: um dia nunca é igual ao outro. Lembre-se a vida do cervejeiro é 1% de glamour e 99% de muito ralo.

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Sobre o Autor

Carlos Lara

Marketeiro e cervejeiro de buteco. Criei a minha paixão pela cerveja há um tempo, principalmente vendo jogos de futebol e tomando uma boa cerveja com o meu pai, e hoje escrevo conteúdos sobre diversos assuntos nas horas vagas.

12 Comentários

  • Excelente entrevista caro Bernardo, o Carlos Magno é um cara que admiro muito, talvez o maior exemplo brasileiro da de uma real transição do mundo dos cervejeiros caseiros para a de proprietarios de microcervejarias. Ele fala com emoção, uma coisa muito pouco comum em um mercado que só pensa em cifras, e nunca deixou de ser um cara bacana, simpático e aberto aos amigos do universo dos cervejeiros caseiros.
    Parabéns a vocês dois !
    Saudações cervejeiras, Tarcísio Vascão.

  • Exemplo. O Magno é o tipo de pessoa rara. Deveriam colocar ele num tanque criogênico pra durar eternamente.
    Um cara incapaz de falar NAO, de uma paixao imensuravel…e sobre tudo etico!

    Sou fã deste Vicking!

    David

  • A História do cara impressiona, já seus produtos, não. Com este portfólio de estilos, apresentação, apelo comercial, a Magnus deve evaporar em meio a revolução microcervejeira. nos EUA tambem muitos dos pioneiros ficaram pelo caminho, hoje sobraram só os que realmente inovaram, como samuel adams, dogfish head, stone, sierra nevada e etc. A bodebrown tem bem menos capacidade de produção, mas vejo muito mais futuro nela.

    • Parabéns ao Magno, um guerreiro cervejeiro, humilde na essencia e batalhador no coração, e ao contrário do que o amigo citou acima não vai evaporar não porque só existem 2 tipos de cerveja, as boas e as ruins e as dele estão no primeiro grupo, não são só das unidades de amargor que vem o sucesso de uma cervejaria, siga em frente Magno e do the revolution.

  • Caro Magno

    Parabéns pela luta e pelo que construiu e construirás. Tu és exemplo vivo de um sonho que também almejamos. Isto é só o princípio. Nossa viagem vai do alfa ao omega, para quem não sabe trata-se da letra inicial e final do alfabeto grego,quer dizer que temos muito a realizar. Abraços.

  • bacana a entrevista

    O Brasil tem sim espaço para muitas microcervejarias, visto que é um dos maiores mercados mundiais de consumo de cerveja do mundo.

  • Carlos é muito bom ler sua entrevista, pois estive lá com você e o Afonso no Tortula e também sinto esta energia e amor na produção de Cerveja. Sou proprietário da Cervejaria Balmann que hoje já tem 5 anos cresça cada vez mais, crescimento este baseado em corajem, alegria, inovação e principalmente na paixão por criar cervejas melhores a cada dia.

    Parabéns

    Fábio Balmann

  • Querido irmão,

    Acho que tenho condições de dizer aqui, ate mais que todos por estarmos juntos nesta vida há 50 anos, faremos agora 24 de maio meio século juntos, distantes ou perto fisicamente. Inclusive trabalhando juntos…
    Acho voce realmente louco, imclusive entrei dentro dessas chamadas de loucuras (rsrs), mas todos os grandes homens do mundo sempre foram tachados como loucos, e deixaram grandes exemplos e trabalhos que ate hj
    são incompreendidos. Parabéns, mais sorte e mais trabalho. Te amo.
    Marcos

  • Magno, que satisfação é a minha neste momento em, quase ser querer, pesquisando sobre algumas cervejas especiais, lembrei de ti, a estou aqui, deslumbrado com tudo que li neste canal, e mais, por ter vivenciado esta trajetória, de um homem empreendedor, lutador, que dorme sonhando e acorda realizando.
    Sou seu fã desde sempre, anos atrás, num outro empreendimento seu…
    Vc é fera, e me sinto orgulhoso de ter feito parte, mesmo por pouco, dessa caminhada. SUCESSO É O QUE TE ESPERA, SEMPRE.
    Do amigo e advogado,
    João Marcos Ultramar Quinteiro e Família

  • Estive em Campos do Jordão e tive a bela oportunidade de saborear a IPA desta cervejaria. Simplesmente maravilhosa.
    Pergunto por ela por todos os poucos cantos que podemos tomar uma cerveja de qualidade.
    Enfim, parabéns pela perseverança, qualidade e nunca desista de seus sonhos.

  • Poxa que legal.
    Lembro de ter feito o mesmo curso no Tortula e o Magno se apresentar como o fabricante daquelas cervejas com os “rótulos descolando” 🙂
    Comprei duas: a Ale, que era muito boa e a Pilsen, razoável.
    Parabéns pela persistência e muito sucesso.

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