O custo da cerveja artesanal de A a Z

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O cervejeiro Leonardo Sewald, sócio da Seasons, fez uma lista de A a Z dos principais motivos para o alto custo da cerveja artesanal no Brasil. O levantamento contou com a revisão de diversos profissionais do mercado. Confira a lista:

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A – armazenamento: Quando se produz algo, é preciso de espaço para armazenar o produto finalizado. Apesar de termos dimensões continentais, a esmagadora maioria dos produtores, sejam eles do setor agrícola ou da indústria, ainda dependem de terceiros para armazenagem dos seus produtos. Novamente comparando com um país grande como o nosso, os EUA: metade das operações de armazenamento do setor agrícola americano está localizada nas próprias fazendas. Aqui no Brasil, apenas 6% da produção agrícola do país é armazenada no local onde foi cultivada, sendo que ela é transportada (leia-se: impactando aí um custo logístico) para um terceiro que a armazena e que, obviamente, cobra por isso. Quem paga, no final das contas? O consumidor, lá na ponta… Mas porque diabos estou falando de agricultura? Lembrem que uma cervejaria utiliza malte e lúpulo, onde o malte, mesmo em grande parte sendo produzido no Brasil, ainda custa caro; o lúpulo, por ser importado, mais ainda.

B – burocracia: burocracia custa caro no Brasil. Abrir uma cervejaria nos EUA é um processo que demora, em média, 3 semanas (em alguns casos exorbitantes, como relatado por alguns colegas de profissão americanos em recentes visitas ao país, 3 meses) Partindo-se do zero burocrático (leia-se, sem licenças ou alvarás), em 3 semanas se tem uma cervejaria legalizada. Se os equipamentos já estiverem prontos, é só iniciar a produção. Aqui no Brasil, temos exemplos de cervejarias que estão a anos sem sair do papel, tramitando no spaguetti burocrático também conhecido como governo, um órgão tão deficiente para atender os pequenos produtores que, por achar que cervejaria é algo grande e que transforma a paisagem, solicita mundos de documentação e cobra caro por uma simples assinatura. Mas o que impacta o custo da cerveja aqui não é o que se paga para obter um alvará ou o famigerado registro do MAPA, mas sim o tempo em que a empresa, já aberta, precisa ficar em um limbo, sem autorização para produzir.

C – custo Brasil: termo utilizado para descrever o conjunto de dificuldades estruturais, burocráticas e econômicas que encarecem o investimento no país. Pode-se dizer que esse é um dos principais vilões desta lista.

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D – distribuição: O Brasil é um pesadelo logístico. Como já exemplificamos acima, com uma logística complicada e cara, composta prioritariamente de transporte rodoviário (o mais caro de todos), isso reflete diretamente no custo.

E – energia: o Brasil é o 4o. país do mundo em custos de energia (dados de 2012 – fonte: The Economist), ficando atrás apenas de países que não produzem energia própria e precisam adquiri-la de fontes externas. Cervejarias dependem fortemente de fontes de energia como gás e electricidade para tocarem suas produções e ainda não é comum as cervejarias do país utilizarem meios sustentáveis pois ainda são caros de se implementar.

F – fornecedores: despreparados para atender o pequeno produtor, boa parte dos fornecedores acabam cobrando caro demais por insumos, equipamentos e outros itens que compõem os custos da empresa.

G – grãos: cervejarias usam cevada na forma malteada para produzir cerveja. Além do já conhecido malte do tipo Pilsen, tipicamente utilizado pelas grandes cervejarias e tipicamente conhecido como malte-base, as artesanais costumam utilizar diversas combinações de malte-base + maltes especiais para produzir cervejas de alto padrão. Lá fora, alguns maltes especiais (i.e. Pale Ale e Malte de Trigo) são vendidos com preço de malte-base por serem utilizados em larga escala pelas microcervejarias. Aqui, o preço deles é de malte especial, cerca de 3 vezes mais caro do que o já mencionado malte-base.

H – Hardware: aqui a palavra significa todo o equipamento necessário para a produção de cerveja. Atualmente, para quem tem capital de giro, é mais barato importar um equipamento inteiro para produção de cerveja (e pagar todos os impostos advindos de uma importação) do que comprar um equipamento de origem nacional.

I – Isenção de frete (a falta dela): quem já fez uma compra on-line e não pagou frete porque efetuou X reais em compras? Pois é, no mercado logístico brasileiro, não tem facilitador: quanto mais se compra, mais se paga frete.

J – juros altos: vocês sabem o que é spread bancário!? Em termos simplificados, é a diferença entre a remuneração que o banco paga ao aplicador para captar um recurso e o quanto esse banco cobra para emprestar o mesmo dinheiro. O cliente que deposita dinheiro no banco, por exemplo, na poupança, está de fato fazendo um empréstimo ao banco. Portanto o banco remunera os depósitos de clientes a uma certa taxa de juros (taxa de captação). De forma análoga, quando o banco empresta dinheiro a alguém, cobra uma taxa pelo empréstimo, sempre superior à taxa de captação. A diferença entre estas duas taxas é chamada de spread bancário. O spread bancário no Brasil é o maior do mundo. O que isso significa para nós? Quando uma empresa vai solicitar financiamento bancário para crescer, a mesma paga juros muito altos, o que impacta no custo fixo. Mesmo com algumas linhas de crédito mais atrativas para a indústria, ainda há um longo caminho a percorrer.

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L – lúpulo: esta é fácil. Não cultivamos lúpulo e utilizamos ele (algumas vezes em excesso) nas nossas cervejas. Apesar de existirem esforços para cultivar lúpulo no Brasil, o lúpulo comumente utilizado ainda é importado.

M – mão de obra: o Brasil é conhecidamente o país #1 em encargos trabalhistas, fazendo com que a mão-de-obra se torne um dos itens mais caros de uma empresa (the economist). Além disso, temos poucos profissionais com formação técnica atuando no setor. Aqui valorizo o trabalho dos bier sommeliers, escolas técnicas e entidades que existem com o intuito de formar e informar as pessoas. Contudo, infelizmente estas entidades ainda tem um longo caminho pela frente, pois a falta de qualificação vai desde o profissional que mexe no grão até o profissional que serve o copo.

N – Normatização: as diretrizes e denominações ligadas à cerveja no Brasil são desatualizadas, e cervejas fora da classicação pagam mais por isso.

O – órgãos setoriais: desunidos e/ou inexistentes, os órgãos setoriais não são engajados. A Brewers Association, entidade que representa as microcervejarias americanas, tem até força política em atuação, com monitoramento constante das representações estaduais. A falta de uma entidade com força similar por aqui faz com que não tenhamos uma língua comum com o governo, fazendo com que mudanças para o melhor demorem mais para ocorrer.

P – pontos de venda desleixados: todo mundo sabe mas ninguém tem coragem de falar: existem alguns pontos de venda que simplesmente vão na contramão do mercado cobrando demais por alguns produtos, ou utilizando margens de lucros fixas, dificultando a venda de produtos mais caros. Pior do que isso são locais que não cuidam dos produtos da forma adequada, com linhas de chope sujas, por exemplo. Chope ruim = chope que não vende = dinheiro que não gira = prejuízo para todos na cadeia = aumento de preços para compensar o prejuízo.

Q – qualidade (a falta dela): esse é um dos problemas que pode, literalmente, acabar com o nosso mercado. Imagine que você nunca tenha comido coxinha de frango. Aí, pelo bem da ciência, por curiosidade ou por indicação de um mestre-coxinheiro ou um coxinha-sommelier, você dá uma chance e prova uma coxinha. Infelizmente, você deu azar e provou uma coxinha ruim, tudo bem. Você estava na rodoviária de Porto Alegre, quem mandou!? Mas se você prova de novo, e de novo, em lugares diferentes, e as coxinhas continuam desagradáveis, as chances são de que você naturalmente concluirá que “não gosta de coxinha”. Aí você visita o Frangó em SP ou o Nossa Senhora do Ó em POA e deixa de provar uma coxinha fantástica porque as outras experiências que você teve no passado não foram boas. Existem alguns empresários que, em um impulso de querer participar do momentum de mercado de cervejas artesanais, entram sem saber o que estão fazendo e criam um produto “meia-boca”. O que estas pessoas não se dão conta é que, se fizerem um produto ruim, não apenas o produto deles não vai vender, mas isso afasta o consumidor do mercado todo. Dedicação e paixão pelo que faz são requisitos obrigatórios das pessoas envolvidas em qualquer meio que está começando, pois tal meio exigirá mais energia do que o normal para que o mesmo seja transformado. Nessas horas é bom se lembrar do mantra “I am a craft brewer”: paixão, dedicação e qualidade acima de tudo são fundamentais. Se você não está nessa para dar o melhor de sí e criar um produto de qualidade, nem comece.

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R – ROI (return of investment): o retorno do investimento de uma cervejaria nos EUA hoje é de cerca de 1,5 anos. Aqui, a média é de 5 anos.

S – suprimentos: diversos materiais de trabalho precisam ser importados pois ou não existem, ou não há como compra-los em pequena quantidade, o que diminui o capital de giro de uma empresa.

T – tributação: esse não dá nem vontade de falar. Já conhecido da maioria, os impostos na cerveja estão girando na casa dos 50% do preço do produto. Em países com tradição cervejeira, como Alemanha e EUA, se aplicam conceitos como os de taxarão progressiva (Alemanha), onde cervejarias menores pagam menos taxas nos seus produtos, ou ainda o flat tax discount, ou seja, descontos fixos de acordo com o volume da produção, sistema adotado no mercado americano. A titulo de exemplo, cervejarias pequenas nos EUA pagam virtualmente 0% de impostos até os primeiros 5 milhões de litros produzidos desde a criação da empresa.

U – união dos povos (a falta dela): já comentado de forma extensa em revistas, blogs, etc. Quanto mais desunidos formos, menos saberemos como trabalharmos juntos para resolver os problemas e mais teremos que trabalhar para resolver os nossos problemas sozinhos. O que isso impacta no custo? Através de parcerias e acesso a informação existe virtualmente uma infinidade de formas de se reduzir custos de produção. Cito como exemplo a cooperação entre as cervejarias do bairro Anchieta, em Porto Alegre, para compra de garrafas: como forma reduzir o impacto do frete, juntamos todas as cervejarias interessadas em adquirir garrafas e compramos uma carreta de pallets diretamente do fabricante, ao invés de comprarmos poucas unidades para cada um de forma independente. União é um traço natural da evolução humana: quando em situações adversas, o ser humano tende a se unir para sobreviver. Os que não se adaptam, padecem.

V – vontade política (a falta dela): o governo está recém nos descobrindo. Ainda precisa se adaptar à nossa realidade. Para isso, precisamos dar um (ou vários) empurraozinho, em ações como a da recente reunião do MAPA em Brasilia, por exemplo. Nesse sentido, ações isoladas de qualquer indivíduo também fazem a diferença. Se você conhece alguém com influência política, a sua voz pode fazer a diferença.

X – xenofilia: se xenofobia significa aversão a estrangeiros, xenofilia significa amor a eles. O brasileiro tende a valorizar mais o produto importado, relegando o produto nacional para um segundo plano. OK, gosto não se discute. Nosso trabalho enquanto cervejeiros é o de fazer cerveja boa. Fazendo isto, nosso espaço de mercado está garantido. Mas o pior é quando isso ocorre na esfera governamental, onde os produtos importados chegam no país com preços mais baratos do que o produto nacional. Isso afeta o preço pois, ao não consumir o produto local, o mercado não se movimenta.

Z – zeófagos: diz-se do que se alimenta de milho. Se podemos dizer que temos algum concorrente, esta é a ignorância do consumidor, daquele que ainda consome “cervejão” rico em milho e arroz. Quanto mais curarmos as pessoas da zeofagia cervejeira que domina o mercado, mais a produção nacional se movimenta, mais opções teremos e o preço consequentemente reduzirá. É a boa e velha lei da oferta e procura. “Cervejão é coisa de zeófago!”

 

fonte: Cervejaria Seasons

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10 Comentários

    Excelente artigo!
    Infelizmente vivemos isso em diversos setores no nosso país.
    Espero que a situação melhore num futuro próximo, para que o nosso país cresça de verdade.

    Este artigo está um espetáculo!

    como algumas microcervejarias nacionais produzem stout a 10 reais e outras a 20?

      embora seja o mesmo estilo, tudo depende da matéria prima utilizada, e claro, da marca da cerveja. numa marca que tenha mais visibilidade, normalmente os bares acabam elevando o preço.

      A Localização da cervejaria também faz diferença, pois como dito na matéria, em termos de logística o Brasil é um caus, e a distância da cervejaria em relação aos fornecedores e distribuidores pode fazer muita diferença.

      A litragem produzida é um outro ponto importante, a grosso modo, quanto maior a escala, menor o custo de produção, logo, cervejarias menores tendem a pagar mais por insumos.

      A resposta do Rafael é ” praticamente” perfeita; só faltou considerar um detalhe importante quando nos referimos ao produtor/comerciante brasileiro que é a tal lei do” lucro pelo menor esforço”.A fome exagerada por lucros, a ganancia e a ansia pelo retorno imediato acabam inflacionando o produto e tornado o negocio inviavel, depois é só culpar o governo ,o socio ou a alta do custo da tampinha .

    Concordo com todos os tópicos mas a ganância por lucros dos vendedores mata o cidadão. Aqui em Brasília, como tudo que se consome, é extorsivo.

      Não sei se você sabe mais a ST para o DF é 38%. Então, alem do frete e tudo mais, o produto ja chega com 38% a mais de imposto. Que tal?

      Se você pensar que o bar usa uma margem de 100% você vai pagar cerca de 75% a mais no preço final. E o bar so perde com isso, Pq é obrigado a praticar preços altos e perde clientes.

    ola gostaria de saber o valor horas de um cervejeiro estou fazendo um trabalho na faculdade sobre cervejas artesanais

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