Entrevistas Universo da Cerveja

Cerveja e Design, com Armando Fontes – Parte 1

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Em entrevistas passadas apresentamos algumas das pricipais micro-cervejarias do Brasil. Porém, não são só elas que hoje se destacam defendendo a bandeira da qualidade e variedade de estilos. Entre elas e os cervejeiros caseiros, como nós da Homini Lúpulo, existem as nano-cervejarias. São produtores muito pequenos, com equipamento totalmente amadores ou com alguma automação, mas que produzem em escala muito pequena. E uma destas cervejarias é tocada por Armando Fontes, um designer carioca, que hoje mora em Belo Horizonte. A Cervejaria Vilã é produzida em caldeirão, como uma produção caseira comum, e se destaca por apostar numa estética e nome bem diferenciado.

Após assistir à palestras de Marco Falcone e Juliano Mendes, há anos atrás, e viajando pelo Brasil à procura das cervejarias artesanais, Armando se apaixonou pela diversidade cervejeira. Parte de sua formação também se deu lendo blogs Edu Recomenda, Latinhas do Bob, Obiercevando, CervejaSó, entre outros. 

O último post deu início à discussão, que vai além da produção de cervejas de qualidade. Nesta entrevista, que será dividida em duas partes, vamos falar um pouco sobre identidade visual e redes sociais no universo cervejeiro.

Homini Lúpulo – Armando, você tem a Cervejaria Vilã e também é designer. Como que se iniciou cada paixão/interesse? Hoje você é um designer que faz cerveja ou vice-versa?
Armando Fontes – Caríssimo leitor, abre uma Vilã e senta que lá vem história. O dom do desenho a mão livre me conduziu naturalmente a optar pela formação em design nos anos 90 e até hoje é parte indissociável da minha história. Muitas conquistas, grandes amigos e namorada(Cátia Rissi, fotógrafa e também designer que me ajuda nas produções das Vilãs). Ainda sou um designer que faz cervejas, são quase 10 anos a mais de conhecimento em uma área em relação a outra, não da pra simplesmente jogar essa bagagem fora.

O mundo da cerveja especial eu conheci com um grupo de amigos designers de São Paulo, quando passávamos o Reveillon de 2003 em Balneário Camburiu, lá conhecemos os quatro chopps de lançamento da Eisenbahn (pilsen, weiss, pale ale e dunkel). Em Maio de 2008 fizemos a brassagem da primeira cerveja caseira. Foi uma Pale ale que logo na brassagem seguinte evoluiu para ser o que é hoje conhecida como Vilã ESB Odete Roitman. Dali pra frente são pelo menos seis estilos fixos de Vilãs. Stout Perpétua, Dark Strong Ale Malévola (terceira colocada no 3º BH homebeer), Weizenbock Satine, Belgian Blonde Catherine Tramel, Kölsch Nazaré Tedesco além da ESB.

Quanto ao surgimento da marca, a estratégia foi de diferenciá-la, tal qual na cultura pop, no meio de um bando de mocinha loirinha sem graça é a Vilã que prende a atenção do espectador. O fato do ritual da cerveja ser brassada em um caldeirão ajudou nessa construção, tanto que assino a marca como Cerveja de Caldeirão. Eu não queria ser mais um com marca inspirada na cultura alemã, ter uma cerveja de nome impronunciável e dificilmente lembrável, escrita com tipografia gótica e rótulo com elementos clichés da categoria, tais como brasão, malte e lúpulo. Precisaria ser algo diferente. Após minhas pesquisas consegui criar algo que me parecia realmente único além de ter fácil e rápido relacionamento emocional com o consumidor.

Armando Fontes designer Cerveja Vilã artesanal

HL – Como você avalia o atual mercado nacional em termos de nomes, marcas e design?
AF – Existem algumas propostas distintivas, mas todos ainda estão em busca de identidade própria para a cerveja brasileira. Os casos de sucesso são inspirados em modelos europeus, na escola alemã, inglesa e belga mas não há muito espaço para novas marcas se continuarem a insistir nessas fórmulas.

Um bom exemplo de produtos e marcas realmente inovadores é a escola americana. Eles revolucionaram e temos criatividade e competência para fazer o mesmo aqui no Brasil, mas será preciso investir em diferenciação de marca. O consumidor precisa perceber a marca como única e não como mais uma.

HL – E tem também a Escola Italiana que vem causando surpresa no mercado por sua inovação. Caminhamos para uma Escola Brasileira, ou estamos muito longe disto?
AF – Sim, estamos caminhando. Admiro muito o posicionamento das empresas que estão buscando isso. Cervejaria Colorado de forma mais destacada, além de Falke Bier, Dado, Way e BodeBrown para lembrar as mais comentadas. Recentemente, a AcervA Mineira realizou um concurso onde o estilo livre buscada determinar cervejas de estilo mineiro. O resultado foi muito rico em sabores, inovação e sobretudo cultura local.

HL – Agora, vamos falar um pouco de internet. Como você vê as micro-cervejarias nas redes sociais?
AF – Por se tratar de um produto de nicho acho que a internet é o melhor veículo pra estreitar relacionamento com os consumidores. Quem tem apostado em relacionamento é a Eisenbahn com o #provetuite e o stammtisch, mas não vejo ninguém explorando o potencial da embalagem como uma poderosa ferramenta de marketing ou de integração com a web.

HL – O Armando designer está a frente de um Twitter com mais de 13 mil seguidores, o @design_se. Nem os perfis mais difundidos relacionados a cerveja artesanal chegam a 3 mil seguidores. Estamos fazendo algo errado?
AF – Não que estejam fazendo errado. Acredito que seja algo mais relacionado a rápida adoção de novas formas de comunicação pelos profissionais de comunicação, incluo ai os designers. Adiciono ai o conteúdo das mensagens tuitadas pelas cervejarias. São mensagens relevantes para os seguidores? Busquem sempre avaliar o potencial de retuite de uma mensagem postada por sua marca. Nada mais chato do que ler “brassando fulana”, “embarrilhando fulana”, “Nossa! Fulana está realmente deliciosa”. Imagina só se a Fiat ficasse tuitando, “um uno produzido!” “Nossa mais um Stilo saindo de nossa linha de montagem!” Entendeu a comparação?

HL – Claro, a informação, por si só, é vazia. É preciso conteúdo e criatividade. Nós fazemos parte do grupo Blogueiros Brasileiros de Cerveja, o BBC, que realizou a campanha #cervejadeverdade e passou a tarde nas primeiras posições do Topic Trendings Brasil do Twitter. Como você avalia o resultado desta campanha e a importância da união dos blogueiros?
AF – É uma honra ser membro fundador do grupo. Somos mais de 150 blogs relacionados a cerveja e a união desses já mostra através da ação #cervejadeverdade toda a dinâmica informativa e poder de comunicação que temos nas mãos. Expressamos nossos conhecimentos e opiniões. Um blog sozinho já é capaz de ter grande força de influência, mas veja o que pode acontecer quando formamos um grupo desse calibre em prol da mesma paixão. Quando nos organizarmos de forma mais afinada acredito que ações mais sofisticadas como vídeos e eventos físicos possam proporcionar novamente grande impacto.

No próximo post, a parte final desta entrevista. Opine, participe deste debate sobre a evolução da cerveja artesanal brasileira. Estamos copiando padrões. Mas será que não é hora de desenvolvermos o nosso? Armando Fontes vai falar ainda sobre sua nano-cervejaria e inicativas da ACervA Mineira de se aproximar de políticos para ter apoio aos pequenos produtores locais.

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Sobre o Autor

Carlos Lara

Marketeiro e cervejeiro de buteco. Criei a minha paixão pela cerveja há um tempo, principalmente vendo jogos de futebol e tomando uma boa cerveja com o meu pai, e hoje escrevo conteúdos sobre diversos assuntos nas horas vagas.

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