Cultura Opinião

Receita de cerveja caseira do Obama, e daí?

Escrito por Carlos Lara
SEGUIR NO INSTAGRAMPowered by Rock Convert

Essa semana a disponibilização da receita da cerveja caseira produzida na Casa Branca esteve em destaque no noticiário. Primeiro, uma petição para a liberação da receita da White House Honey Ale. Depois, a receita em si causou grande comoção. Se por aqui circulou com grande velocidade, imagine como não deve ter sido nos EUA. Primeiro, por que há muito mais cervejeiros por lá. Segundo, ele é o presidente de lá! Mas, vamos desconstruir essa história toda?

Para começar, vamos às questões políticas, depois uma análise da receita em si, formou? Então, esta cerveja não é novidade nenhuma, tendo sido noticiada aqui no Homini lúpulo há cerca de um ano. E nem tinha sido a primeira vez da produção da mesma. E por que só agora, em período de eleições presidencias, surgiu a tal petição para liberar a receita? É difícil pensar em coincidência neste caso. Ainda que não seja ele o produtor, ele passa uma imagem mais descolada e ele tem um histórico ligado ao homebrewing. Presidente e cervejeiro, em contraponto com a figura mais careta e conservadora de Romney. Assim, esta polêmica em cima da White House Honey Ale reforça a diferença de perfis dos candidatos. E com certeza Obama ganha a simpatia das centenas de milhares de cervejeiros americanos e talvez perca votos de Evangélicos.

Outro fator interessante desta notícia é como a cerveja faz parte da cultura americana e como eles procuram se agarrar nessas tradições. Os primeiros presidentes, a independência americana e outros elementos importantes da história local tem ligação próxima com a bebida e a produção da mesma. Com essa característa, Obama (que volta e meia aparece bebendo uma cerveja na mídia) se aproxima deste passado. Aqui no Brasil não há essa relação com cervejas, pois não é um elemento tão fundamental da cultura nacional. Mas um paralelo interessante que podemos traçar é com o Lula. Famoso apreciador de bebidas, Lula sempre que podia declarava seu amor à cachaça, bebida mais tradicional brasileira. Mas, bastou ele se tornar presidente, figura pública importante em todo o mundo, para migrar para o “mais nobre” whisky. Apesar de presentear comumente visitantes estrangeiros com cachaças, Lula tornou público esse seu novo gosto, provavelmente como uma forma de mostrar a sua evolução. Ponto para os americanos!

Agora, vamos olhar do lado cervejeiro? Bom para o Obama (ou não), melhor para a gente! Nunca antes na história deste país o tema cerveja caseira e receitas esteve na mídia com tamanha propulsão. Ver nas redes sociais pessoas comentando e pensando em fazer esta receita é algo sem precedentes. Bom para a imagem dos produtores de cervejas, bom para a divulgação desta cultura, afinal, Barack Obama é um dos homens mais importantes e influentes do mundo.

 

Para finalizar, vamos ver a receita, em si, sob uma ótica de produtor de cervejas?

De cara, temos aí uma característica marcante dos produtores de cerveja americanos: o uso do extrato de malte. No Brasil são raros os produtores de cerveja com extrato, ou seja, que já compram um preparado dos açucares extraídos do malte e apenas os misturam. Por aqui, o comum é utilizar apenas os grãos. Com grãos o resultado é mais intenso, interessante, como um suco artifical em pó versus um feito na hora com a fruta. Ambos podem ser bons, mas o feito da maneira tradicional sempre é mais gostoso e tem-se um resultado mais personalizado.

 

O método de produção é bem diferente, da mesma forma. Os grãos já vem moídos ou em forma de extrato. Após uma breve brassagem, a cerveja é fervida, adicionado os lúpulos (nos EUA existe até extrato de lúpulo, e já isomerizado) e o mel. O resfriamento é feito utilizando água direto no mosto, outra prática nada comum por cervejeiros que usam só grão. Trata-se de uma receita de uma ale inglesa com a adição do mel produzido na Casa Branca. Como não são revelados os parâmetros de densidade, cor e amargor, fica difícil tentar reproduzir esta cerveja sem utilizar os extratos americanos. Mas a torcida é para que muitos tentem a reproduzir, principalmente se for um estímulo para começar a produção. Obrigado, Obama e Casa Branca, por fomentar a cultura cervejeira! Não sei se vai render alguns votos, mas a gente agradece.

 

por: Bernardo Couto

Sobre o Autor

Carlos Lara

Marketeiro e Sommelier de Cerveja. Criei a minha paixão pela cerveja há um tempo, principalmente vendo jogos de futebol e hoje escrevo conteúdos sobre diversos assuntos nas horas vagas.

10 Comentários

  • Sou homebrewer e uso a tecnica de partial mash, a mesma da casa branca. O resultado final eh tao bom quanto o de all grain. No Brasil, como ha pouca variedade de extratos de malte, a unica desvantagem desta tecnica e que a gama de tipos de cerveja possivel de ser produzida e menor. Mas volto a repetir que o produto final eh do mesmo nivel.

    • Se for pra usar extrato eu compro cerveja pronta… dá no mesmo!! cerveja com extrato,mesmo que parcial pra mim é miojo!!

      negócio é all grain!!

  • Achei legal publicarem a receita mais pelo frisson da coisa, o agito que isso causou, pensei no lado da divulgação de uma receita para a “massa” que sempre pergunta como é que faz cerveja quando vc se apresenta como cervejeiro caseiro. Não tinha a visão de política, e gostei muito da leitura. Parabéns.

    Em tempo, eu aprendi que para resfriar a cerveja pós fervura tem o chiller, mas também a água gelada, eu até então só usei esse método. Gostei de saber do fato de que a tecnica é pouco usada aqui. Vou por o assunto na lista de discussão da Acerva.

    Abço

  • O Brasil sempre teve preconceito com o extrato de malte.
    Até entendo o motivos, mas acho que não cabe as comparações feitas nesse post…
    Acho que tu foi um pouco agressivo demais.

    • Respondendo aos dois acima, eu não tenho nada contra o uso de extrato. É uma forma de produzir para quem te menos tempo, disposição ou espaço mesmo em termos de equipamento. Mas, particularmente, não uso e não recomendo quando se quer uma experiência cervejeira completa. E aqui, com poucas opções de extratos, fica realmente muito limitado.

      Não veja como agressividade uma opinião. A minha percepção é apenas a minha verdade, e é natural e saudável que pessoas não concordem e tenham as suas verdades. Já bebi cervejas de extrato e, desculpe a sinceridade, não é a mesma coisa. Isso não quer dizer que sejam ruins ou algo assim. Apenas que uma excelente cerveja feita 100% com grão é bem melhor do que uma excelente cerveja feita com extrato. E aí, falo do uso em grande quantidade do extrato, não usar menos de 5% só para corrigir a densidade ou cor.

      Mas eu adoraria que amigos que tem pouco espaço e tempo para dedicar a isso, mas que adoram cerveja, fizessem suas cervejinhas de extrato. O mais importante é produzir, inventar, ter a sua cerveja.

      abraços!

  • Fico indignado ao ver ainda a rejeição aos extratos de malte neste nosso país, assim como quando vejo rejeição aos frangos já sem penas e limpos nos supermercados. Será que ainda existem pessoas comprando frangos vivos para preparação em casa ????
    Respeito a opinião de cada um, numa ciência como a nossa do ” Quase tudo pode “, da ” Exatas da aproximação”, do ” Nada e certo e nada é errado”, mas qual a diferença efetiva em utilizar maltes em grãos ou extratos ??? ambos são naturais. Qual a diferença entre escurecer cervejas com maltes queimados ou extratos queimados ?????
    Não gosto dos extratos de malte já lupulados, muito utilizados na Inglaterra e Austrália, mas sou apaixonado pelos que não bloqueiam minhas flexibilidades, que minimiza problemas com minha esposa na cozinha de casa, gerando praticidade, personalidade e qualidade final em minhas cervejas artesanais.
    Aos conservadores que adoram processos, sugiro plantarem e colherem seus grãos e flores, tratarem suas águas e cultivar suas leveduras, pois irão se divertir muito mais.

      • Mano, voce deveria ir pro Afeganistao, seria um otimo Homem Bomba com todo esse seu fundamentalismo

        Chato pra caramba!!

        O unico problema do extrato no Brasil é a falta de opçoes. Nos EUA isso existe ha 30 anos e esta muito desenvolvido

        Muito melhor a experiencia de fazer uma cerveja com extrato qdo voce esta começando, com relaçao aos processos, limpeza etc.

        Dificilmente quem começa no Homebrew vai comprar 2 panelas, entao imagina na primeira brassagem vc tem q moer 5kg, 6 kg de malte na mao )se tiver pago120,00 num moinho porcaria), fazer toda a mosturaçao, recirculaçao e sparging, depois AINDA ter que lavar a panela, jogar fora o malte ainda quente ,pra depois fazer a fervura…….

        Falo por experiencia propria. depois de 6 meses e 10 lotes de extrato foi que finalmente eu migrei pra all grain.

        e finalizando: Personalidade, ou voce tem ou voce nao tem, seja na sua cerveja ou na sua vida

        Obrigado

  • Jaime Pereira, quanto ao frango, eu acho que o frango de granja vendido congelado nos supermercados é infinitamente menos saboroso e menos saudável que o frango caipira, e oeu o como mesmo assim. Há pessoas que preferem o frango de granja e outros o frango caipira. Não precisa criar frango em casa, basta comprar de quem cria ou vende principalmente em feiras livres. Como também não é necessário cultivar cevada e lúpulo em casa, basta comprar de quem produz ou revende.
    Ficar indignado com a opção dos outros que optam por extrato ou grãos me parece um tanto quanto infantil e perda de tempo.

  • Muito bacana o texto, mas tinha que falar uma besteira citando evangélicos. Os EUA, quase em sua totalidade é Protestante, ou seja, crentes, evangélicos, como quiserem chamar. Isto que dizem que crente não bebe tem que ser desmitificado. O que é condenado não é o uso, e sim o abuso. Muito bom o texto e a receita. abraços

Comentar