Cultura Opinião

Exemplo a ser seguido, por Alexandre Bazzo

Escrito por Carlos Lara
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Todos sabem da minha opinião sobre quando alguém diz que existe uma Escola Cervejeira Americana, não concordo com isso, não existe. Mas, então devemos ignorar o que acontece nos EUA, no que diz respeito a cerveja e cultura cervejeira? Não, de jeito nenhum. Se no mundo todo a cerveja artesanal cresce, devemos a isso aos americanos que desde os anos 70 vem trabalhando na divulgação da boa cerveja. Os pilares são: produtos excelentes aliados à uma forma diferente de marketing, voltado a educação, apresentação e conscientização do consumidor.

O cenário cervejeiro americano no final dos anos 70 era muito parecido com o nosso atualmente. Grandes cervejarias dominavam o mercado com produtos sem aroma, sem sabor, barato, mas alguns pequenos produtores começaram a fazer cervejas com personalidade. Neste começo, as inspirações eram das escolas inglesa e alemã, mas eles tinham dificuldade em colocá-las no mercado foi então que eles tomaram a atitude de falar ao consumidor o que a cerveja deles tinham de bom. Quem assistiu a palestra do Pete na Argentina viu ele contando esta batalha inicial. Nos EUA temos grandes especialistas e estudiosos de cerveja, livros traduzidos e publicados, escolas, organizações, associações, revistas, programas de televisão, sempre voltado a facilitar a educação do consumidor e do produtor. Preciso citar uma pessoa, pra mim o gênio da cerveja americana Randy Mosher, tudo o que ele diz é ensinamento.

 

Depois que aprenderam fazer bem o arroz com feijão eles começaram a ousar, barris de carvalho, fermentação espontânea, frutas, etc. Mas vejamos as cervejarias e os cervejeiros que sobreviveram dos anos 80 e 90 até hoje. Todos eles conhecem profundamente as escolas inglesa, alemã e belga, não lendo os guias de estilos, mas indo visitar o local de origem dos estilos, vendo como esta sendo feito hoje, comparando com o passado, conversando com historiadores, cervejeiros locais, ou seja, imergindo na cultura cervejeira destes países. Daí com uma técnica apurada eles conseguem dar alma ao produto. Guias de estilos servem apenas pra alguma consulta rápida, é impossível fazer boa cerveja lendo um guia de estilo.

 

Atualmente o mercado de cerveja artesanal nos EUA é de 6%, aqui no Brasil é algo em torno de 0,2%. Além disso, eles tem 2 grandes fornecedores de levedura, que fornecem fermento pra você fazer qualquer estilo de cerveja que você queira. Eles tem várias opções de fornecimento de maltes, mas o grande diferencial fica com o lúpulo: eles plantam seus lúpulos, utilizando-os frescos em boa forma. Conseguem comprar equipamentos de qualidade, barris de madeira de vários tipos, por tudo isso eles conseguiram construir um mercado forte que cresce todo ano, diferente do que acontece na Inglaterra e Alemanha, onde cai todo ano. Já na Bélgica, primeiro país europeu influenciado pelos americanos, eles conseguiram reverter a situação e parou a queda de consumo de cerveja neste país.

 

Vejo uma forte tendência na Inglaterra e na Alemanha em inspirarem-se nos EUA e Bélgica no que diz respeito a apresentação e marketing das cervejas. Tenho certeza que esta seria a melhor saída deles pra recuperarem seus consumidores. Então, não é demérito para os americanos dizer que eles não são uma escola cervejeira, pois se no mundo todo mais pessoas estão bebendo cervejas produzidas por pequenos produtores isso nós devemos a eles que ressuscitaram este mercado de cervejas especiais.

 

Devemos nos libertar dos preconceitos, lutar pela inserção da boa cerveja no mercado, tentar buscar novos consumidores. Estamos 30 anos atrasados na cerveja, nosso caminho é longo ainda. Precisamos aprender a fazer cerveja, aprender a vende-la, para no futuro quem sabe chegarmos a 1% do mercado nacional.

 

Alexandre Bazzo é sommelier de cervejas e mestre-cervejeiro da Bamberg

Sobre o Autor

Carlos Lara

Marketeiro e Sommelier de Cerveja. Criei a minha paixão pela cerveja há um tempo, principalmente vendo jogos de futebol e hoje escrevo conteúdos sobre diversos assuntos nas horas vagas.

4 Comentários

  • Gostaria de recomendar e solicitar a todos cervejeiros, blogueiros e etc… que costumam escrever sobre mercado cervejeiro, a quando postar dados, numeros de mercado, a informar a fonte da onde tirou, por exemplo: de onde tiraram que mercado de cerveja artesanal nos EUA é de 6%?? pois segundo a Brewers Association, o mercado norte americano de cerveja artesanal alcançou incríveis 15% (quase 3 x mais do que os 6% divulgado aqui).

    acho que quem escreve, deve escrever e abordar o assunto com mais seriedade e menos brincadeira.

  • e no fim diz “Devemos nos libertar dos preconceitos, lutar pela inserção da boa cerveja no mercado”, como pode dizer isso se é o primeiro a ter preconceito contra a escola norte americana no fato de nao legitima-la! hahahaha!!!

  • Escolas.
    Mesmo sendo um cervejeiro novo no ramo, concordo com o texto do Alexandre. Os americanos são bons em ‘patentear’ coisas como se eles fossem os criadores; aí é que acredito que pequem. Que os americanos deram impulso ao mercado cervejeiro artesanal, que desenvolveram técnicas novas, que buscaram novos meios e matérias-prima e que tenham até inovado substancialmente, não creio que alguém tenha dúvidas. Mas daí a serem escola, no sentido que se aplica ao universo cervejeiro e que acredito queira dizer algo como ‘berço de origem completa de uma bebida fermentada à base de cereais predominantemente maltados’, é pretensão ou falta de consciência histórica. Os estados unidos é muito novo para ser berço de algo tão antigo.
    Porque concordo como Alexandre? Porque creio que ali, nos EUA, está uma boa indicação a seguir pelos brasileiros. Não concordo com denominar cerveja artesanal aquela que é majoritariamente ‘manuseada’ por máquinas, nisto Alexandre está mais para os americanos do que eu, então somos discordantes. Porém sou da mesma opinião dele no que se refere a educação, não forçada claro, do consumidor, concordo com a visão mais moderna americana e belga -e olha que só faço cerveja puro malte e puro grão- para que o universo cervejeiro se expanda e ultrapasse esse modelo -americano, diga-se de passagem- de massificar produtos ruins a base de muita marketing.
    Enquanto pessoas como vocês, Bruno e Luiz Felipe, participarem de fóruns e fizerem comentários como aqui, estou feliz e com esperanças. Desçam o pau no Alexandre, em mim, em todo mundo, somos adultos, creio que estamos aqui ‘também’ para isso.

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