Cultura Opinião

#CERVEJADEVERDADE: verdades e mentiras

Escrito por Carlos Lara
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Em poucos dias diversos blogueiros de cerveja de todo o Brasil bolaram uma ação na internet para chamar atenção sobre as cervejas focadas em qualidade. A atividade ganhou apoio generalizado online e antes do previsto estava nos TTs BR e por lá permaneceu até o final do dia, com horas no topo da lista, inclusive. Fato é: cerveja e sexta-feira combinam. Depois vieram diversas críticas, naturalmente, muitas pertinentes, poucas não tanto. Mas será que é melhor fazer, mesmo com falhas, e ser criticado ou simplesmente não fazer?

 

O nome foi criado, assim como diversos outros, em debates coletivos e foi o mais votado, e com menores restrições (apesar de haver algumas internas mesmo, e com razão). Toda unanimidade é burra, e escolher um nome que represente um sentimento tão vasto é complicado demais. No dia seguinte, tudo aconteceu, foi muito rápido. E, após isto, houve uma ressaca do hashtag, ficou uma herança maldita que muitos não queriam para si. Porém, o termo pegou e ficou no meio de cervejas produzidas com preocupação na qualidade. Virou slogan de cerveja artesanal. Virou referência de bares que vendem cervejas de estilos diversos. O que fazer então? Uns chamam cerveja artesanal e são criticados. Outros usam cerveja especial e da mesma forma “erram”. Pois então, chamemos cerveja de verdade! Sim, e daí?

 

A maior crítica é que para ter uma verdade precisa ter uma mentira. Mas, veja bem, isto não é inteiramente verdade. E vamos deixar ninguém menos do que Garrett Oliver, da Brooklyn Brewery, responder. Em artigo publicado no livro Cerveja e Filosofia, ele defende a tese da “Matrix etílica: realidade versus fac-símile na produção de cerveja”. Para Oliver, as outras cervejas não são de mentira, apenas são cópias baratas (literalmente) do que historicamente é cerveja. Como o pão de forma moderno (com meros 25 ingredientes), o queijo processado e a margarina. Ou alguém acha que margarina é uma manteiga de verdade?

 

Oliver acredita que “muitos vivem na ‘matrix’ da falsa comida”. E ele vai mais além, quando afirma que o tempo apaga a idéia do item real, deixando apenas o fac-símile em seu lugar. Talvez, se chegássemos com uma cerveja comercial para um inglês 200 anos atrás ele pudesse dizer sem pensar duas vezes que aquilo não era cerveja de verdade. Garrett Oliver se questiona, ainda, até onde pode-se ir e ainda ser considerado cerveja. “Se uma ‘cerveja’ fosse completamente produzida de arroz enzimaticamente convertido, condimentado com extrato de lúpulo isomerizado e colocado em uma lata em menos de uma semana após a fermentação, então você ainda consideraria isso cerveja?”

 

Eu não considero. Garrett Oliver certamente não. Para mim, quando eu tiro uma xerox de um documento, aquele ali, com as cores meio estranhas, num papel diferente, mesmo autenticado e tudo mais, continua sendo uma cópia. Não é um documento de verdade, apesar de poder ser utilizado como tal. Oliver faz uma comparação entre o Red Bull e a cerveja. Ninguém espera nada do energético, pois ele não tem história, nenhuma bagagem. Logo, não há expectativas. E cerveja é justamente o contrário. Ela tem talvez 10 mil anos para nos contar e ensinar. Por que lutar contra isso, apagar essa rica história?

 

“Uma bela verdade pode ser confeccionada num laboratório de sabores? Um perfumista provavelmente diria que sim. Um cervejeiro artesanal diz que não”, afirma o mestre-cervejeiro da Brooklyn Brewery. Quando se copia algo e o altera simplesmente para uma produção mais barata e rápida, a essência se perde. O que sempre encantou o homem se perde: a perplexidade. Sentir sempre o mesmo sabor, que coisa mais chata. A padronização de gostos, roupas e até casas assola a humanidade. Vemos condomínios de luxo na China que mais parecem com um subúrbio americano. Qual o próximo passo: a picanha do churrasco ser de soja? Já sei, todos usarem o mesmo perfume! Hum… mulheres com seios do mesmo tamanho?

 

Não! Eu quero algo meu, que poucos ou que só eu tenha. Que cada dia eu tenha uma experiência única, de verdade. Que me traga um sentimento de estar vivo de verdade. Se nos prendemos à rotina de trabalho e cuidar da casa, não quero comprar uma rotina de sabores onde qualquer lasanha congelada (quatro queijos, molho branco ou bolonhesa) tem o mesmo exato sabor: pouco! O presunto que quero é sem soja, é de verdade. A cerveja é com qualidade, sem abuso de matérias primas que tirem seu sabor. Sem economizar no lúpulo por que as pessoas não gostam de amargor. Não quero uma cerveja tão rala que precise de estabilizante de espuma para não se parecer com um refrigerante. A cópia não me interessa, quero o pão de verdade, de farinha, água, sal, açúcar e fermento. A lasanha que faço em casa com capricho. Eu quero a cerveja de verdade!

 

O fim, portanto, fica a cargo deste mestre-cervejeiro que produz cervejas de altíssima qualidade nos Estados Unidos, mesmo em grande escala, há muitos anos. Garrett Oliver: “Mas ainda assim meu telhado é coberto com grama artificial, cercado por plantas de verdade. Não é grama sintética – esse troço é caro, e foi desenvolvido para uso residencial. Carreguei a grama lá para cima e a desenrolei no sol da primavera. A “grama” parece de verdade; se tirar meus sapatos, ela perece real. Ela muda meu estado de espírito de um jeito que o pixe preto debaixo dela não fazia. Não tenho que regar, e tem garantia de dez anos. E sim, de uma forma esquisita, um pouco brega até, ela é bonita. Chega de escrever, estou indo para o telhado curtir uma cerveja de verdade”.

 

 

Sobre o Autor

Carlos Lara

Marketeiro e Sommelier de Cerveja. Criei a minha paixão pela cerveja há um tempo, principalmente vendo jogos de futebol e hoje escrevo conteúdos sobre diversos assuntos nas horas vagas.

8 Comentários

  • Excelente, como sempre, Bernardo! O problema é o mesmo de sempre: “vaidade cervejeira” – esse câncer que me afasta cada vez mais de ler e escrever sobre cerveja e só beber 😀

    Parabéns!

    Abraços,

  • Parabéns. Excelente texto.
    Uma das coisas que mais me fascina quando compro uma garrafa de cerveja artesanal, ou de verdade, é que cada garrafa é única. Mesmo esperimentanto a mesma marca, do mesmo estilo, com a mesma receita, existem variações de aroma, sabor, etc..
    No universo das cervejas artesanais não existe a obcessão pela padronização, pela homogenização do “controle de qualidade” seis sigma onde tudo deve ser igual.
    Cerveja deve ser única. Deve ser produto da conversão do amido em açucar pelas enzimas presentes no malte, deve ser ácidos alpha e beta isomerizados pela longa fervura do mosto e deve ser fermentadada no ritmo que o fermento mandar. No processo de produção da cerveja, o cervejeiro somente o controla, quem o executa é a natureza.
    Cervejas feitas assim, cujo processo quem comanda são os processos naturais e não acelerados, é cerveja de verdade.
    Isso sim é cerveja de verdade.

  • caro,
    acho q uma coisa é vc querer algo próprio, com alma, uma experiencia única, outra coisa é o que o oliver diz sobre toda a história de 10 mil anos da cerveja vs. industrialização pós-moderna. da forma como está escrito parece que fazer uma cerveja com ingredientes totalmente inusitados, com maturação e métodos totalmente novos resultando numa cerveja muito diferente do que sempre existiu, que é o que muitos cervejeiros artesanais buscam, seria tambem jogar fora os 10 mil anos de história? eu acho q não, mas ao jogar este argumento contra as macros vc abre brecha pra este tipo de argumento que eu te apresentei.

  • Fabrício, não desanime. A vaidade também está nos olhos de quem vê! Então faça um pouco de vista grossa hehehe que cerveja é alegria e descontração.

    Marcelo, sua colocação faz muito sentido. Na minha visão, o conceito da cerveja de verdade não está no malte ou no lúpulo. Está na obtenção e busca da qualidade dentro de uma bebida. A Gouden Carolus usa milho em sua receita e não deixa de ser uma grande cerveja! A questão é o como usar, qualquer coisa que seja… Senão, cervejas bruts não seriam “cervejas de verdade”, pois foram criadas há menos de 2 décadas.

    Ou seja, o que é uma cerveja de verdade? Uma cerveja feita para ser única, com a visão do mestre-cervejeiro sobre aquele produto. E não com a visão comercial, de executivos que querem só vender mais e mais. Como o Linus falou, o mais interessante é provar cada dia cervejas novas, diferentes…

    Não coloco industrializadas vs. artesanais no texto. Repare bem… falo em padronização de sabores. Leffe, Chimay, Erdinger e Urquell estão aí para mostrar que grande não é sinônimo de baixa qualidade. A própria Brooklyn já não é mais tão pequena assim.

    Acho que a cultura cervejeira está na busca pelo bom e diferente, tanto faz se muito ou pouco.

    O que acha?!

    abraços,
    Bernardo

  • Ótimo post Bernardo. Gostaria de complementar que no mesmo livro que saiu este artigo do Garret Olivier (Cerveja e Filosofia, de Steven D. Hales) tem um outro corroborando totalmente, de altoria do Sam Calagione, da cervejaria Dogfish Head, também norte americana que diz o seguinte:

    “…Existem dúzias de estilos de cervejas tradicionais, centenas de cervejas extremas e mais de mil cervejarias nos Estados Unidos. No entanto, apenas três delas produzem mais de 80% da cerveja consumida. Isso tem acontecido em um país que supostamente defende a individualidade e a liberdade de escolha. A boa notícia é que uma fração cada vez maior do público consumidor de cerveja está percebendo que esse triste fato é inaceitável e fazendo algo a respeito. Os consumidores estão buscando e obtendo alternativas. Enquanto as vendas nessas cervejarias gigantes tem se mantido constantes, as cervejas artesanais cresceram 7% em 2004 e 9% em 2005 – representando um crescimento percentual mais alto do que o das cervejas das grandes corporações, dos vinhos e dos destilados nos Estados Unidos.

    A empolgação em torno do segmento artesanal e mais especificamente do das cervejas extremas, tem até motivado as grandes cervejarias a investir veladamente numa tentativa de ganhar dinheiro dentro deste segmento. A Coors fabrica e vende uma cerveja de trigo estilo belga sob o nome de Blue Moon com pouquíssima referência e material promocional relacionado à sua genealogia Coors. A Anheuser-Busch recentemente lançou suas próprias cervejas semiartesanais com nomes como Devils Hop Yard India Pala Ale. Au as chamo de semiartesanais porque ao mesmo tempo que são feitas com ingredientes similares aos das cervejas artesanais de verdade, não são fabricadas com a mesma filosofia.

    Em outras palavras, uma empresa que foca 99,9% de suas energias em vender uma lager rala e feita com arrozk nunca será uma cervejaria artesanal. Estou esperançoso de que o próprio mercado comprovará que isso é verdade e que os entusiastas e consumidores esclarecidos votarão com seus dólares e elegerão cervejas artesanais de verdade, feitas por cervejarias artesanais de verdade, e não por conglomerados cervejeiros multinacionais oportunistas e especuladores que ganham dinheiro em cima de uma tendência.

    • Verdade Marco. Outro excelente artigo deste livro!

      Creio que chegará o momento no Brasil que uma cerveja produzida por uma gigantes coorporação virá travestida de cerveja artesanal. Espero que o público brasileiro consiga perceber a diferença!

      abs

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