Cerveja aguada ou encorpada?

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Doppelbock: muito corpo, de verdade!

É comum ouvir estes dois termos de quem está começando a distinguir as cervejas comerciais das especiais ou artesanais. As cervejas comerciais são classificadas como aguadas, bem como as comerciais mais “baratas” são consideradas da mesma forma se comparada às mais caras (como Itaipava versus Bohemia). Ao beber uma cerveja com sabor mais marcante, com aroma e tudo mais, conclui-se: esta é encorpada. Até mesmo garçons vendem elas assim. Mas será que isso é apropriado ou as pessoas estão viajando?

 

Bem, encorpado se refere ao corpo (não brinca!), que está atrelado à sensação que temos na boca ao beber. Ou seja, uma cerveja encorpada seria aquela que te dá a sensação de preenchimento maior, mais licorosa, aveludada. Enfim, parece mais densa, com uma carga maior de açúcares e proteínas na sua versão final. Sob esta perspectiva, falar que toda cerveja diferente de uma light/standard lager é mais encorpada faz até sentido, uma vez que Brahmas da vida são quase desprovidas de corpo mesmo, para que se tenha um suposto drinkability maior.

 

O uso dos cereais não-malteados e outras fonte de açucar, que não o malte de cevada, de fato, deixam as light e standard lagers quase que sem esta sensação de preenchimento da boca. Como estas fontes de carboidratos não geram sabores e açucares não-fermentáveis da mesma forma que o malte, a cerveja fica com menos sabor. Ou seja, são fontes em que quase tudo que é produzido de açucar, na fermentação vira álcool e CO2. Isto tudo em prol da máxima que cerveja deve ser clara e leve. Até aqui, então, ponto para quem usa o termo encorpada (mas só até aqui, hein!). E o aguada? Bem, aí não é bem verdade, mas na sensação na boca faz um pouco de sentido. Não é que estas cervejas tenham tão menos insumos em relação à conta de água da receita, necessariamente. É apenas que ela é produzida para deixar o mínimo de proteínas e açúcares não-fermentáveis no resultado final, como já foi dito. Logo, parece que pegou-se uma pilsen tcheca, com sabor mais marcante, adicionou um pouco de água e está feito. Em termos de sabor é quase isso mesmo. Porém, é importante ressaltar que elas tem praticamente o mesmo teor alcoólico, logo esta máxima fica apenas no imaginário popular.

 

Um mito que é importante ser exterminado é a relação cor e corpo. “Ah, cervejas escuras são mais encorpadas, boas para o inverno”. Não trace este paralelo, ele é fundalmentalmente marketing.

Linha de cervejas da Colorado: qual dessas é a mais encorpada?

Mas, vamos pensar um pouco além. Se chamamos qualquer cerveja especial de encorpada por conta do seu sabor mais acentuado, como as distinguir entre si? Vamos pegar, como exemplo, as cervejas da Colorado. Ela tem a linha mais básica (por faixas alcoólicas e complexidade), que inclui a Caium e a Appia (pilsen e weizen); possui a linha intermediária, com Indica e Demoiselle (IPA e Porter); e possui a linha mais extrema, com cervejas como a Ithaca e a Vixnu (Imperial Stout e Imperial IPA). Se a Caium é mais encorpada que a Skol, digamos, todas as outras também são (ohhhhhh). Então, ficaria um jogo complicado em que a linha básica é menos encorpada que a intermediária, que é menos que a extrema e por aí vai. E mais, será que a Demoiselle é mais ou menos encorpada que a Vixnu. E Appia versus Indica, quem ganha? E isso fica bem complexo de entender, não?

 

Logo, a sugestão seria pensar em cervejas encorpadas, cervejas com corpo médio e cervejas bem leves e secas. Não é por que a cerveja tem um teor alcoólico maior ou maior carga de lúpulo que ela é mais encorpada. São fatores independentes. As cervejas de estilos como tripel e strong golden ale tem alto teor alcoólico, são bem complexas de sabor e aroma, e são bastante secas. E agora, José? E as IPAs seguem o mesmo caminho: doses generosas de lúpulo para amargor e sabor/aroma e final seco. Calma não se desespere. Para piorar, as sweet estout tem um teor alcoólico bem baixo e tem uma densidade bem alta, pois não são fermentadas até que todo o açucar seja consumido.

 

Esse texto todo e estes exemplo foram para tentar ilustrar como as características não se relacionam diretamente. Quando for beber uma cerveja, separe seu aroma, seu sabor, sua aparência e a sensação na boca. Se a sensação na boca for de que está bebendo algo mais denso, parabéns, o Homini lúpulo te concede o direito de usar o termo encorpado. Pode retirar seu cupom carimbado na secretaria. Se a cerveja não tem gosto de nada, diga apenas: “essa cerveja não tem gosto de nada” e não que é aguada, pois o problema ali não foi a quantidade de água, mas o tipo de processo e a fonte de carboidrato escolhida. E se a cerveja tem um sabor intenso, mas você não sente essa sensação licorosa na boca e o sabor não é tão persistente, está bebendo uma cerveja muito saborosa e seca.

 

por: Bernardo Couto

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18 Comentários

    Excelente texto Bernardo !!
    Abração, Tarcísio Vascão.

    Bernardo, parabéns pelo texto. É sempre bom aprender e ter a oportunidade de repassar aos amigos que estão chegando ao mercado das cervejas especiais. Abraço!

    Concordei em parte, primeiro parabéns pelo post que é muito legal…
    Acho que os termos podem ser usados de forma correta, é verdade que ABV, IBU e SRM nada tem haver com o corpo da cerveja, e sim a sensação na boca e sua densidade!!! Aguada, embora possa não estar tecnicamente correto, deixa bem claro qual a sensação ao tomar aquela cerveja, ela não tem corpo nem sabor, logo parece água… Aguada, pra mim, não é oposto de encorpada… A cerveja pode não ter tanto corpo e ter sabor que não a torna aguada!

    Agora, seca (pra mim) não tem nada a ver com nada… A sensação seca é dada pela adstringência do aftertaste, semelhante a dos vinhos. por exemplo, as tripels me dão sensação de boca cheia, percebesse o dulçor do malte e sensação aveludada… No final, a acidez dá a sensação de adstringencia e sensação de secura que pede o próximo gole, a mesma sensação tenho com IPA e Imperial IPA, essa segunda bem ‘encorpada’.
    Bom, na verdade não discordo de nada… É apenas minha visão!!! hehe.

    Abraços

      Concordo com a parte sobre a cerveja “seca”. E quanto ao fato de ABV, IBU E SRM não terem nada a ver com o corpo da cerveja, eu discordo, uma vez que a sensação na boca e sua densidade são exatamente o que descrevem o corpo da cerveja.
      Em relação ao post, ótimo pra quem se inicia no mundo das craft beers.

        Sobre ABV, IBU E SRM, uma cerveja mais alcóolica nem sempre é mais densa, aliás, quanto mais açucar é transformado em Alcóol menos densa ela fica, o próprio exemplo do texto, é a Sweet Stout que mal chega a 5%ABV. O Amargor é dado pelo lúpulo, pode ter 10 ou 100 IBUs que a densinade vai ser a mesma, determinada pelo malte… E a cor (SRM) é dada pela torrefação (ou não) do malte, também não influencia a densidade!!!

    Sim, claro ! Tinha lido errado, amigo. Hehehe

    Acredito q, popularmente, dizer que a cerveja é aguada não se refira à maior quantidade de água e sim o contrário, menor densidade e consequentemente, menos notas de sabor.

    Post importantíssimo para quem inicia no mundo das cervejas especiais.
    Parabéns!!

    Concordo com o Henrique, me parece que o termo simplesmente seja suficientemente direto e popular para dizer falta de sabor.

    pfbru melhorou ainda mais o artigo já bom do Bernardo.

    Mundo bacana esse das cervejas artesanais!

    Ótimo post xará!

    Eu fiz uma Blond Ale e ficou “sem corpo” na minha opinião de amador. Mas esqueci de colocar o malte Cara Munic. Deve ter sido por isso que achei estranho.

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