Cultura Opinião

Balanço da pesquisa sobre tamanho das microcervejarias

Escrito por Carlos Lara
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por: Bernardo Couto

 

Cervejaria Colorado: entra as maiores micros do Brasil

Após a Brewers Association divulgar a lista das maiores cervejarias de 2011 nos Estados Unidos fui indagado e, por que não dizer, desafiado a fazer tal levantamento no Brasil. Pensei, de cara, que seria um trabalho árduo, mas facilitado, hoje, pelas redes sociais e google. Assim, entrei em contato com todas as cervejarias que eu conheço, e algumas outras que fui descobrindo no google ou que me indicaram. Os contatos foram feitos por email, facebook e twitter institucionais da empresa, e a imensa maioria das cervejarias respondeu, de alguma forma, à minha mensagem, seja para passar os dados ou apenas encaminhar um outro contato que resolveria o caso. Outros tantos foram para email pessoais e contas com o qual já tenho o hábito de me comunicar, logo, seria um trabalho ainda mais facilitado com estas cervejarias. O resultado publicarei amanhã. Hoje, apenas um relato de como foi o processo, como forma de reflexão sobre a situação do mercado e das empresas.

 

E por que então escrever isso tudo? Bem, pelo simples fato de que a grande maioria não teve interesse em participar deste levantamento, ou sequer consegui contato. Ou seja, a pesquisa sobre o tamanho das cervejarias brasileiras acabou com uma conclusão: a dificuldade de comunicação das cervejarias brasileiras. Estimaria que menos da metade (21 cervejarias) passaram os dados solicitados, que foram: nome, ano de fundação, cidade e volume de produção mensal. Assim, perde-se a oportunidade de ter uma noção, ao longo do tempo, da evolução do mercado e das nossas cervejarias, bem como ter um panorama mais preciso da atual situação. Apenas uma cervejaria, a Way Beer, respondeu dizendo que não informaria o tamanho de sua produção mensal. As outras, simplesmente, não responderam o email com o dado, mesmo após o contato inicial, ou não foi possível ter contato nem por email (disponibilizado no site da empresa) nem por redes sociais.

 

Fica, no fundo, a sensação de que as microcervejarias (e aqui, claro, temos muitas exceções) não ligam muito para comunicação, principalmente com blogs/sites especializados. Ainda há uma enorme valorização da grande mídia, com grande celebrações quando matérias são publicadas sobre cervejas. Mesmo que inúmeras vezes elas saiam com erros ou aplicam um tratamento inadequado e impreciso, focando invariavelmente em louras geladas, rótulos mais caros e cervejas de inverno. Enquanto isso, diversos sites/blogs que desenvolvem um trabalho, na maioria das vezes, sem nenhum retorno financeiro, apenas pela paixão e vontade de fomentar o crescimento do mercado e do conhecimento sobre cervejas, acabam sendo marginalizados. Parece não haver o interesse em atender a estes veículos, seja enviando releases e cavando matérias, seja apenas respondendo a mensagens e emails. É de se imaginar, então, a dificudade para o cliente tentar se comunicar com estas cervejarias.

 

Outra percepção é que, apesar de terem contas em redes sociais e emails de contato no site, estes não funcionam adequadamente como um canal de comunicação, tanto com o público quanto com mídias digitais. Parece que não se percebe a importância de enxergar o negócio como um todo, que há muito mais do que fazer boas cervejas e ter muitos pontos de venda. Ficou patente que não há uma pessoa dedicada a esta função (com raríssima exceções no mercado), nem tampouco algum funcionário que se dedique e pense nestes assuntos, ainda que apenas em parte do tempo do trabalho.

 

Por fim, fica também o agradecimento a todos que se prontificaram a enviar os dados. Se a maioria ainda tem o comportamento relatado acima, outra parte mantém uma relação próxima e acessível, tanto para o público quanto para a imprensa, seja qual mídia for. E, este, sem dúvida, é o caminho para a vida de uma empresa no longo prazo.

 

A conclusão, apenas, é que o levatamento que publicarei amanhã será para lá de impreciso, pois terá como vencedora uma micro que não é a maior do Brasil (em termos de tamanho, apenas!). Assim, quem sabe num próximo ano pode-se buscar um resultado mais adequado, ou, até mesmo, com a criação de uma associação estes dados sejam levantados e divulgados como é feitos nos EUA, onde impera o profissionalismo em todos os aspectos.

Sobre o Autor

Carlos Lara

Marketeiro e Sommelier de Cerveja. Criei a minha paixão pela cerveja há um tempo, principalmente vendo jogos de futebol e hoje escrevo conteúdos sobre diversos assuntos nas horas vagas.

20 Comentários

  • Belo texto, Bernardo. Infelizmente, pra quem já está há tempo tendo que lidar com esse tipo de situação, isso não é nenhuma novidade. Ainda falta muito para as cervejarias brasileiras aprenderem a lidar melhor com sua comunicação. Enquanto alguns ainda acharem que isso é uma bobagem, fica difícil.

    O mais surreal é ter que ouvir cervejeiros dizendo que os blogueiros de cerveja não dão espaço para as cervejarias brasileiras nos seus blogs. Já ouvi isso ao vivo de alguns donos de cervejaria…

    O que compensa é que não são todos assim. Muitas cervejarias já estão fazendo um belo trabalho de comunicação com blogs e consumidores. A esses fica a minha saudação.

  • Parabéns Bernardo pela sua teimosia em querer ajudar. Infelizmente estamos vendo muitas microcervejarias na contramão. Talvez para eles não. Só $$$$
    Sugiro darmos palco para as cervejarias que estão abertas ao positivismo e aos clientes/mercado.
    As demais não merecem ser tomadas nem comentadas.
    Saúde!

  • Agradeço desde já pela oportunidade de acesso a uma pesquisa dessa natureza, ainda que deficiente. E por um motivo lamentável.

    Uma pesquisa sobre as políticas de comunicação das/entre cervejarias e cervejeiros de nosso país seria tão interessante quanto esse levantamento já em questão.

    Parabéns pela iniciativa. Abraços.

  • Bernardo, e muitos sequer querem ter o “trabalho” de ler sobre o seu mercado. O importante é o comercial, o importante é ter caixa. Mas é uma situação que muda conforme as pessoas começam a fazer escolhas melhores. Sabemos que não é só de “sabor” que vive uma marca. Quem não sabe atender um cliente, não sabe também fazer um produto bem. O conjunto da obra é que gera história, que gera lucro, para todos. Parabéns pela iniciativa! No que for preciso me disponho a ajudar! Parabéns as empresas que tratam o consumidor como deve, com informação, cultura e carinho.

  • Parabéns pelo trabalho, Bernardo, estou bastante curiooso para ver os resultados.

    No mais, é de se lamentar que a participação tenha sido tão pequena. Talvez um dia os microcervejeiros brasileiros acordem, como ocorreu nos EUA… Sonhar não nos custa nada.

  • Posso estar sendo ingênuo, mas eu acho que os caras estão vendendo tudo o que produzem, não vencem a demanda, e embalados pelo mercado aquecido, não acham que esse estreitamento de relações vá ajudar em alguma coisa.
    Na situação atual, até cerveja de má qualidade com a chancela de “artesanal”, “especial” e o escambau vende como água. Ainda vai demorar para o público em geral se informar, se afiar e saber o que é uma boa cerveja (e isso não tem haver com gosto pessoal, e sim com qualidade de produção). Só então é que a seleção natural vai agir, mantendo o que é bom e eliminando (ou dando jeito) no que é ruim, e certamente a atenção que a cervejaria dá ao seu público, mídias, etc, vai ser decisiva para a sua sobrevivência.

    • Rômulo, são poucas as cervejarias nacionais que não tem capacidade ociosa. E, indo mais longe, a maioria tem MUITA capacidade ociosa, passando de 50%, inclusive.

      E mais, tem muita cervejaria que não produz mais porque não consegue vender. Não ache que tudo que sai no mercado seca, pois não é bem assim. Isso ainda é um previlégio para algumas.

      abs

      • Obrigado pela informação! Bom, nesse caso é ainda mais preocupante né?! Dessa forma, a seleção natural vai agir bem mais rápido… Um abraço e parabéns pela pesquisa!

  • Gostaria de levantar dois pontos:
    1º – No EUA existe a associação das cervejarias, e esta associação que coleta informações, pois tem credibilidade junto as cervejarias. Um orgão sério e competente existente a muitos anos e que promove a cultura cervejeira norte americana.
    2º – Acredito que: Os blogueiros cervejeiros não tem muita credibilidade junto as micro cervejarias brasileiras, talvez porque alguns pedem cervejas, outros divulgam informações erradas, não se preocupam muito em verificar antes a verdade por varios angulos, simplesmente correm para divulgar algo q pensam ou copiam de outras fontes sem citarem etc.. Muitos metem o pau em várias micro cervejarias sem dó, sem ao menos dar o direito de resposta etc.. Eu penso que quando os blogueiros cervejeiros se preocuparem mais em investigar, certificar, antes de divulgar qualquer coisa, verificar a verdade de todos os angulos possíveis, raciocinar, nao falar bem só por jabá e meter o pau nas demais etc.. TERÃO MAIS CREDIBILIDADE e assim poderão obter maiores informações com mais facilidade! NÃO SÃO TODOS BLOGUEIROS E NEM ACHO QUE ESSE BLOG COMETE ISSO, POREM acredito que voce Bernardo, pagou a conta de mtos outros.

    • Marcelo,

      Como blogueiro de cerveja me sinto ofendido com qualquer insinuação de que nosso trabalho não é feito seriamente. Se as microcervejarias tem restrições contra ALGUNS blogueiros, elas tem que direcionar suas críticas a eles, sem generalizar. É a mesma coisa que eu dizer que toda cerveja brasileira é de baixa qualidade só porque algumas cervejarias não estão nem aí para o produto.

      O mercado está em formação e TODOS estão no mesmo barco. Se alguém está fazendo algo errado tem que ser criticado e, se for o caso, defenestrado. Seja blogueiro ou cervejaria.

      Cuidado com as generalizações, meu caro.

  • bernardo, eu tenho uma industria de refrescos, e se voce quiser saber quantos litros eu fabrico por mes, é claro que não vou te dizer. o motivo é simples, pra sobreviver eu vendo uma parte do refresco sem nota, e não vou dar mole de publicar na internete uma coisa dessas

    • Leonardo, penso que vc poderia declarar o que vende com nota. E, na verdade, o problema não foi a dificuldade de me dizerem o volume, foi de não conseguir prosseguimento no contato. Todos tem esses problemas, em todo tipo de assunto. Até mesmo para falar de novos produtos e tal.

  • Bernardo, somando-se a tudo que foi dito, temos uma cultura de “teoria da conspiração”, onde isso pode soar com espionagem industrial, uma coisa maníaca que o povo tem de achar que sempre querem, perdão pelo português claro e chulo, fuder ele, então para que vou dar minhas informações a quem não conheço.

    Se soubessem da seriedade do seu trabalho como sabemos, dariam a informação, eu gostaria de saber como estou no mercado, se sou grande, pequeno, se posso crescer, sem contar a propaganda gratuita que é um trabalho desses, mas enfim, estamos devagar mudando a cultura de uso de mídias e principalmente, credibilidade, que é o mais difícil.

    Parabéns pelo trabalho, e aguardamos a divulgação amanhã.

    Abraço

  • Texto genial. Faço minhas, suas palavras. Embora haja um número considerável de exceções, os microcervejeiros tratam a mídia especializada com desprezo, especialmente quando essa mídia busca informar e divulgar fatos de interesse da comunidade. Mas é preciso considerar que o microcervejeiro é um pequeno empresário e sua formação em Humanidades, em geral, é bem limitada. Eles possuem essa visão tradicional de que mídia só é boa quando faz propaganda do produto deles. Nunca ouviram falar em marketing institucional (ou se ouviram, não sabem o que significa). A melhor propaganda de uma microcervejaria é a pessoa do cervejeiro. É só observar os músicos e atores – esses caras são gênios do marketing.

  • Bom dia,

    Procuro informacoes sobre o mercado consumidor de cevada para cervejas, no Brasil. Gostaria de saber quais as cervejarias que compram o malte, ja internalizado, no Brasil. Haveria uma lista das micro cervejarias as quais necessitam comprar cevada, importada?

    Agradeco a atencao.

    Atenciosamente,

    Wagner

  • Pessoal, sou um ex superintendente do SINDICERV em Brasilia e tive a oportunidade de conhecer nao somente as empresas grandes do mercado como, Ambev, Kaiser, FEMSA, Schin, Petropolis, como tambem de visitar mais de 40 fabricas de pequemos e medios cervejeiros, incluido micros.
    A dificuldade de levantar informaçoes é enorme de vido a desconfiança(justificada….) dos empresarios do setor.
    Atualmente faço consultoria tributaria(pautas fiscais) e governamental para pequenos e microscervejeiros e recentemente criei um grupo no Linkedin.com paa discutir temas como tributaçao, governo, tendencias do setor e todos os assuntos relacionados a cerveja.
    Quem se interessar é so procurar no Linkedin o grupo Microcervejeiros / Home Brewers – Brasil.
    Fico a disposiçao de todos…forte abraço.
    Enio – enior7@bol.com.br

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