Cultura História

As escuras ales inglesas

Escrito por Carlos Lara
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No início, as cervejas inglesas, qualquer uma, eram conhecidas como ales apenas. Os termos Porter, Brown e Mild até hoje são usados para designar estilos de cervejas, e eles são alguns dos mais antigos utilizados da Inglaterra. A bebida de Robin Hood e seus contemporêneos tinha tons escuros, com predominância do marrom. E tinha ainda o sabor defumado, pois o malte era torrado na fogueira. Assim era a cerveja inglesa mais primitiva.

 

O que hoje conhecemos como porter era inicialmente chamado de brown beer, qualquer uma que fosse. Antigamente, era muito comum fazer diversas cervejas em uma mesma leva, separando partes com maior densidade e outras com menor. E, assim, ao longo tempo, as divisões entre as determinadas características foram surgindo. Logo, as mais fortes eram chamadas de brown stout e as mais fracas de brown porter. As mild ales eram cervejas ainda mais leves e vendidas sempre frescas, sendo a parte de menor densidade ainda na produção. Caso fosse mais envelhecida, passava a ser denominada stale. O termo brown ale, apesar de todas esta história, é recente. Em suas pesquisas, Ray Daniels (no livro Designing Great Beers) sequer conseguiu encontrar esta denomincação no início dos anos 1900, quando porters, stouts, milds e pales apareciam com freqüência.

 

Ao longo do tempo, os estilos tiveram tempos áureos e épocas de decadência e esquecimento. A mild ale foi taxada de bebida do proletariado e esquecida, e até hoje é um estilo pouco produzido se comparado ao seu grande momento séculos atrás. E o mesmo aconteceu com sua irmã mais famosa, a porter. Este estilo foi o primeiro a ser produzido em escala comercial, pegando carona da Revolução Industrial. Neste período, as cervejarias construíam tanques fermentadores de madeira gigantescos, e eram o orgulho das empresas. Quanto maior, melhor. Para se ter idéia do tamanho destes fermentadores, o maior deles era mais de 17 vezes maior do que o maior tanque de fermentação do mundo atualmente, o da Coors, no Colorado. A produção era tão grande que a maior cervejaria londrina da época, Barclay Perkins, produzia 270.000 barris por ano. Hoje, as maiores cervejarias locais produzem na casa dos 20.ooo barris.

 

Porém, em 1814 a cerveja porter deixou uma marca negra que mudaria o rumo da produção cervejeira. Um vazamento e ruptura de um tanque de menos de 7 metros de altura, que depois levou consigo diversos outros, alagou uma área de 5 quadras de raio. A força foi tamanha que matou 8 pessoas instantaneamente, chegando a pelo menos 20 mortes no total.

 

Com o tempo, o estilo tão proeminente foi sendo substituído por outros, e as stouts (passando a ser um estilo próprio) mantiveram as cervejas britânicas mais escuras nas linhas de produção. E chegou-se a um momento em que nenhuma cerveja porter era fabricada comercialmente nas ilhas britâncias. O estilo recentemente ganhou novo fôlego com o Renascimento das Cervejas Artesanais, onda que vai se espalhando pelo mundo e trazendo de volta a história e a cultura cervejeira para dentro dos copos.

 

Sobre o Autor

Carlos Lara

Marketeiro e Sommelier de Cerveja. Criei a minha paixão pela cerveja há um tempo, principalmente vendo jogos de futebol e hoje escrevo conteúdos sobre diversos assuntos nas horas vagas.

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