Cultura

A era da baixa expectativa

SEGUIR NO INSTAGRAMPowered by Rock Convert

Ler a entrevista do Greg Koch à Revista da Cerveja (edição 5) me fez ir longe. Não é só pela visão deste americano sobre o mercado de cervejas, mas são idéias e conceitos que valem para praticamente tudo. Greg fala: “Quando me perguntam quem é o nosso pior concorrente, eu respondo que é a baixa expectativa que as pessoas tem em relação às cervejas”. Assim, ele defende que se as pessoas não perceberem e nem esperarem que a cerveja possa ser algo além da “coisa amarela e sem graça” tudo está perdido.

 

Isso me remeteu diretamente ao artigo que escrevi http://www.incredibleblogs.com/ há algum tempo, sobre o sempre polêmico termo “cerveja de verdade“. Consumimos fac-símiles de produtos, como cerveja, pão, presunto, manteiga… Esperamos pouco e recebemos pouco, é simples. Mas não pára por aí, estamos nos habituando a esperar pouco de tudo, e buscar uma realização pessoal também genérica. O que a nossa sociedade atual espera da sua vida? Vemos hoje pessoas com vinte e poucos anos (ou até menos) que já desistiram de seus sonhos e trocam facilmente satisfação pessoal por estabilidade, seja na carreira que for. Aceitam receber a infelicidade de 8h às 18h em troca da estabilidade financeira ao longo da vida. Pessoas que escolhem uma formação acadêmica pensando apenas na facilidade que terá em passar em um determinado concurso público e assim nunca ter que se preocupar com demissões ou variações ao longo da vida. Mas esta oscilação faz parte da condição humana e do nosso aprendizado. E não há como fugir disto!

 

Não sou exemplo para nada, mas vejam meu caso. Resolvi ser jornalista porque gostava de escrever. E fui trabalhar com edição de vídeo. Depois com cerveja. E sei lá o que vem por aí nos próximos anos. O desafio nos move, e é atrás dele que vou.

 

Da mesma forma, que expectativa hoje nós temos em relação a cerveja? Que ela seja leve e pouco amarga, de preferência. Até por que ter que se adaptar a algo mais intenso e rico ou mais amargo não está na prioridade de muita gente. Melhor não pensar muito a respeito, talvez. Como entender a pizza da Sadia, Pif-Paf ou qualquer outra do gênero, como uma pizza e se satisfazer com isso?

 

É essa expectativa medíocre que vemos todos os dias quando acordamos. E está em todos os lados. Está no café da manhã de péssima qualidade, com um leite sem gosto, um pó de café ruim, sem aroma nenhum, e um misto quente. Este feito com pão de forma genérico, que é tudo menos pão. Feito também com queijo processado e com o presunto que é tudo menos um presunto. Ou alguém já viu aquele formato retangular padronizado em alguma parte do porco?

 

Um dos maiores prazeres que eu tenho hoje é buscar algo diferente. Experimentar texturas, sabores e aromas que me marquem. A sociedade parece evoluir para tirar o nosso prazer nas pequenas coisas. Mas eu luto contra isso. Quando faço a minha cerveja ou quando abro uma qualquer, tenho expectativas de ter um momento especial, seja na bebida em si ou na situação vivida. Não preciso acreditar que aquele refrigerante alcoólico a base de cerveja é de fato uma cerveja e é isso que vai me acompanhar pelo resto da minha vida. Não preciso me contentar com a historinha de que o paladar do brasileiro é que pede este tipo de cerveja. Minha expectativa sobre tudo é maior do que a média, por que eu busco coisas acima do mediocre. Aliás, muito acima!

 

Aqui, é bom que fique claro, não estou falando mal da opção de ninguém. É evidente que diversas pessoas de fato são felizes com empregos públicos, públicos e de qualquer outro gênero, e não há nada demais nisto. A felicidade é diferente para cada um de nós. A crítica é à estabilidade ser mais importante do que a realização. É a não esperar nada de um trabalho senão um salário. É não esperar nada de uma cerveja além de refrescância e embriaguez. É não esperar de um café nada além de cafeína. É muito pouco perto do que temos a desfrutar enquanto estamos vivos!

Sobre o Autor

Carlos Lara

Marketeiro e Sommelier de Cerveja. Criei a minha paixão pela cerveja há um tempo, principalmente vendo jogos de futebol e hoje escrevo conteúdos sobre diversos assuntos nas horas vagas.

6 Comentários

  • A reflexão é interessante, mas permito-me discordar frontalmente. Acho que o problema da nossa época é exatamente o contrário do que você colocou: não o da parca expectativa, mas o do excesso de expectativas. Acreditamos em promessas muito espetaculares que nos foram feitas desde a infância pela publicidade, pelos nossos pais, pelos economistas, pelos nossos educadores. Promessas de crescimento fabuloso, de abundância e de prosperidade que eram simplesmente delirantes. E agora queremos cobrar a conta dessas promessas, exigindo que tudo na nossa vida seja espetacular. Queremos “experiências”, e com isso nunca queremos dizer simplesmente estarmos próximos das pessoas que amamos e que nos amam. Uma “experiência” exige, com toda certeza, o consumo de algum tipo de produto de luxo, exige a satisfação dessas promessas de opulência e riqueza. Perdemos a capacidade de nos contentar com as outras pessoas, e requisitamos para o nosso bem-estar produtos, objetos e mercadorias distintivas que nos façam nos sentir “especiais”.

    Não podemos nunca mais comer um mero pão de forma Pullman: é preciso que seja sempre um über-pão-gourmet. Todos os dias, a toda hora. Para que comer arroz com feijão se posso comer foie gras no almoço de quarta-feira? Para que me contentar com carne de segunda se sei que o filé mignon é mais macio? Só porque o boi tem centenas de quilos de carne além do filé mignon? As “sobras” que fiquem para os pobres de espírito, porque eu exijo sempre o melhor! Não podemos mais beber a cerveja simples, do dia a dia: é preciso sempre que ela seja especial, super premium. Exijo beber todos os dias aquela cerveja que, quando era feita pelos monges, era reservada só para os feriados litúrgicos. E, de preferências, duas ou três garrafas a cada sentada. E ainda me sinto no direito de dizer que são bobos os outros que não querem – ou pior, não podem – se dar ao luxo de pagar o preço por um produto desses todos os dias. Afinal de contas, se tudo isso nos foi prometido, deve ser trouxa quem não conseguiu obter, não é?

    Para mim, pobreza de espírito não é comer presunto Pif-Paf. Pobre mesmo é quem precisa de jamón Pata Negra para ter alguma felicidade na vida.

    Abraços!
    Alexandre A. Marcussi

    • Alexandre, entendo que você coloca.

      Mas não estou falando sobre ostentação ou necessidade consumir produtos super-premium para ser feliz. Estou apenas falando em qualidade. E aí, cada uma faz a sua, não é mesmo? Um arroz com feijão bem feito é muito melhor que o Filé Mignon normal, e por aí vai. Ou até mesmo, falando de cerveja, uma comum em boa companhia desce muito melhor do que uma super-cerveja para ser bebida sozinha, trancado em casa…

      • Nisso estamos de acordo. Claro que beber uma super cerveja num fim de noite solitário tem seu quinhão de prazer, mas nada comparado a uma boa companhia, mesmo que regada a Skol e que-tais! 😀 Eu guardo minhas grandes expectativas preferencialmente para as pessoas à minha volta (e sim, quebro a cara com frequência!).

        Abraços!
        Alexandre A. Marcussi