Degustação

Pliny the Elder: a inesquecível cerveja Imperial IPA

Escrito por Carlos Lara
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Ineditismos são permanentes em nossa memória, vide a famigerada “a primeira vez é inesquecível”.  A primeira relação amorosa, o primeiro emprego e até mesmo a primeira traição são exemplos de experiências indeléveis por toda a vida.

Claro, nem sempre aquele primeiro ato será inesquecível, mas sua repetição pode gerar um momento marcante. Algo semelhante acontece quando se bebe a que considero a melhor cerveja do mundo no estilo Imperial/Double IPA, a inesquecível Pliny the Elder.

A experiência em prová-la foi é intensa, daquelas de parar o tempo, que minha sua memória paga todas as demais que havia experimentado.

O nascimento da Pliny the Elder

O surgimento da cerveja começou como um embrião de seu criador, Vinnie Cilurzo. Vindo de uma família proprietária de uma pequena vinícola localizada em Temecula, Califórnia, ele resolveu investir na abertura de outro segmento de bebidas junto com mais dois sócios, surgindo assim, no ano de 1994, a Blind Pig Brewing Co.

imagem1De início sua intenção foi criar uma cerveja nova e grande, que possuísse uma monstruosa carga de lúpulos e amargor, servindo também para esconder qualquer defeito aparente, já que os equipamentos da cervejaria eram muito arcaicos.

A cerveja recebeu o nome de Inaugural Ale, tinha entre 6,5 e 7% de teor alcoólico, 100 IBUs e envelheceu por 9 meses com chips de madeira.

Servida pela primeira vez na festa de um ano da cervejaria ela ficou famosa ao participar do Great American Beer Festival, onde foi descrita pelo seu criador como uma Double IPA, um estilo inédito até então, sendo a primeira vez que era vendida comercialmente.

Vinnie ainda criou outra Double IPA no segundo aniversário da cervejaria, mas só muitos anos depois que ele voltou a produzir outra cerveja do estilo que o consagrou e já em outra cervejaria. O embrião criado anos atrás com a Blind Pig Inaugural Ale resultou no nascimento da Russian River Pliny The Elder.

A fase da Russian Riven Brewing Company Russian River Brewing Co.

Após três anos comandando a Blind Pig, Vinnie foi com a esposa em 1997 para a cidade de Sonoma County indo trabalhar para a Russian River Brewing Co., cervejaria de propriedade da Korbel Champagne Cellars, tradicional vinícola especializada na produção de espumantes.

Ficou responsável por cuidar de praticamente tudo relacionado à cervejaria, inclusive a parte de pedidos e entregas, o prejudicando no motivo principal pelo qual foi contratado, fazer cervejas.

Recebeu um bom aprendizado na utilização de lúpulos frescos retirados direto da colheita, já que a Korbel ofereceu um pequeno campo de plantação de lúpulos a pouca distância da cervejaria.

Em 2003, a Korbel decidiu sair do ramo cervejeiro e vendeu a marca a Vinnie, que a adquiriu junto com sua esposa, que também vinha do ramo de vinícolas. Um ano depois foi reinaugurada, inicialmente apenas como um brewpub, localizado no centro de Santa Rosa.

Quatro anos depois abriram uma cervejaria localizada a 2 km do brewpub, triplicando a produção da Russian River, atendendo melhor a localidade e ainda conseguindo enviar algumas cervejas para mais quatro estados americanos.

Vinnie Cilurzo, sua esposa Natalie Cilurzo e os mais de 60 empregados da Russian River

Vinnie Cilurzo, sua esposa Natalie Cilurzo e os mais de 60 empregados da Russian River

No ano de 2000, ainda trabalhando como empregado da Russian River, Vinnie foi convidado junto com demais cervejarias a participar de um festival de Double IPA.

Mesmo sendo o criador do estilo, no momento a cervejaria não produzia nenhuma DIPA, então a solução foi criar uma.

A receita ele conseguiu criar rápido, sem dificuldade, mas o nome foi o que mais demorou. Após muito estudar ele a batizou como Pliny The Elder (Plínio, o Velho), o famoso suposto descobridor do lúpulo.

Quem foi Plínio o velho?

Ele teria sido o criador do nome botânico e o primeiro a escrever sobre lupus salictarius, atualmente humulus lupulus, ou lúpulo, embora essa versão seja atualmente muito discutida.

Escritor, historiador, gramático, administrador e oficial romano, Plínio teve uma morte muito conhecida gerada por excesso de curiosidade científica, depois de ficar muito perto da explosão do Monte Vesúvio.

O filho adotivo, Pliny the Younger

Aqui a história começa a ficar um pouco mais confusa, mas vamos lá!

Fazendo parte do topo dos mais famosos ranks cervejeiros do mundo dentro do estilo Double/Imperial IPA, a PtE perdeu posição para outra cerveja da Russian River, desbancada justamente pelo seu parente mais novo, Pliny The Younger (Plínio, o Jovem).

Pliny the Younger - Double/Imperial IPA - 10,5% ABVBatizada com o nome do sobrinho-neto e filho adotivo de Plínio, o Velho, ele também ficou famoso por continuar o trabalho do pai ao documentar seus feitos, principalmente o trabalho humanitário no monte Vesúvio, quando resgatou muitas pessoas da tragédia.

Também uma Imperial IPA, a The Younger é triplamente mais lupulada que uma IPA comum e passa por quatro processos de dry hopping.

Dada sua maior carga de insumos, trabalho e custos, é produzida só uma vez ao ano, servida na pressão no brewpub e demais pubs da região com a proibição de a acondicionarem em growlers ou garrafas. Seus apreciadores ficam horas nas filas dos pubs para a provarem.

Em 2013 suas vendas foram de duas semanas e a data da próxima leva está agendada para a primeira sexta-feira de fevereiro de 2014, em comemoração ao seu décimo aniversário.

Distribuição no Brasil?

Infelizmente nenhuma cerveja da Russian River é importada para o Brasil e dificilmente será. É uma microcervejaria centrada em abastecer sua região e alguns estados vizinhos, e nestes, nem todo seu portfólio é enviado.

A própria Pliny tem uma distribuição bem reduzida e difícil de conseguir mesmo nos Estados Unidos.

Apesar de produzida o ano todo, cada lote sai com uma quantidade bem limitada de propósito. Afinal, querem que ela toda seja consumida o mais rápido possível tão logo engarrafada, a fim de ser aproveitado o máximo que o aroma fresco da alta lupulagem pode extrair.

Seu rótulo reforça essa questão com engraçadas frases, como: Não é uma Barleywine! Envelheça seu queijo, não a Pliny! Plínio é uma figura histórica, não torne essa cerveja uma também!

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Inesquecível, marcante, rara, mítica e premiada (ganhou medalhas em festivais americanos e mundiais), provar a PtE servirá para atestar sua unanimidade. Ou não.

Discordar de sua fama servirá para mostrar se ela é mais hype que cerveja.

Talvez existam melhores, mas de acordo com quem já experimentou, é difícil encontrar uma que a superasse ou que me surpreendesse como ela fez.

Já a tomei umas seis vezes e é sempre delicioso reencontrar todo o frescor dos lúpulos Amarillo, Centennial, CTZ e Simcoe. Desse jeito a PtE ainda continuará por um bom tempo sendo a minha inesquecível Imperial IPA.

Degustando a cerveja

Pliny the Elder - Double/Imperial IPA - 8% ABVAo abrir a garrafa o cítrico estacionou no ar. Mas antes, sua aparência: laranja e translúcida.

Espuma cor bege claro, vasta e cremosa, três dedos de tamanho que demorou a cair. Quando o fez sujou os lados. Aroma plenamente tomado pelos lúpulos frescos.

Alto frutado de laranja, toranja, maracujá e tangerina.

Um nítido cheiro de temperos de cozinha: salsa, hortelã e erva cidreira. Resina de pinheiro. Floral intenso enrodilhou tudo com perfume de desabrochadas flores.

Perdido em cítrico, herbáceo e floral, mas sem esquecer os maltes. Presença de caramelo, pão e mel.

O paladar veio intensamente cítrico. O perigo do amargor alto, exagerado e agressivo. Mas até que não, foi primorosamente equilibrada.

Corpo denso, não licoroso e carbonatação pouco sentida. O herbal pediu passagem ao cítrico, veio com seus temperos de ervas e variando. Ora cítrica e herbal, picante e temperada. Oleosidade resinosa.

O calor apareceu e o picante de pimenta vermelha pinicou a língua, lábios e garganta. Poder de fogo curioso, amargor e picante não repelem, são desejados. Cítrico retornou outra vez. O arremate foi seco, finalizou e limpou os vestígios.  

 

 

Sobre o Autor

Carlos Lara

Marketeiro e Sommelier de Cerveja. Criei a minha paixão pela cerveja há um tempo, principalmente vendo jogos de futebol e hoje escrevo conteúdos sobre diversos assuntos nas horas vagas.

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