O Alexandre enviou este texto e um vídeo sobre a panela automática que montou para a produção de cervejas. Confira abaixo o relato dele sobre o experimento:


Assim que comecei a me reinteressar a fazer cerveja (já tinha tentado há uns 25 anos), fiquei pensando se não havia uma forma mais fácil ou pelo menos automática para fazer os controles de temperatura.

 

Não aprendi a fazer cerveja em nenhum curso; busquei vídeos no youtube e principalmente dicas nos blogs. Existem vários, que como esse aqui, são feitos por pessoas apaixonadas pelo assunto e sem interesses financeiros, dão dicas e até ensinam mesmo como a coisa pode ser feita. São pessoas que merecem parabéns.

 

Voltando ao assunto, depois de ver um monte de gente fazendo cerveja de várias maneiras, percebi que alguns problemas eram constantes. O espaço necessário era grande, o controle de temperatura era uma coisa que deixa o cervejeiro totalmente preso ao que está fazendo e a filtragem tomava muito tempo. Isso sem falar que é quase impossível se repetir uma receita, por causa da imprecisão nas variáveis, principalmente no controle de temperatura.

 

Fiquei muito entusiasmado quando descobri que já existia uma panela que faz cerveja de forma automática e ocupando pouco espaço. É a Speidel Braumeister. Procurando por esse nome todos poderão conhecer aquela maravilha.

 

Só que o entusiasmo esfriou um pouco quando descobri que essa panela só deve vender na Europa, porque além dela ser alemã, eu nunca vi para vender em lugar nenhum por aqui. Pesquisando na internet eu descobri que a de 20 litros custa 1700 euros. Acho que se ela pudesse ser importado ia chegar aqui a um preço proibitivo.

 

Por causa disso eu decidi que ia fazer uma bicha dessas. Sou servidor público, moro em Brasília, mas vivi mais de 25 anos no Rio em uma oficina e lá desenvolvi habilidades suficientes para serrar, furar, soldar e fazer montagens eletrônicas. Mesmo que a maioria não tenha essas habilidades, acho que qualquer um com algumas ferramentas básicas pode fazer algo parecido, se souber o caminho das pedras.

 

Comecei em novembro de 2012 a procurar os materiais para fazer a panela. Eu não queria comprar nada sem a certeza que ia começar e conseguir acabar. Depois que eu percebi que ia conseguir praticamente tudo que ia precisar, comecei a comprar as peças.





A primeira coisa que fiz foi pegar uma panela de 38 litros que eu tinha e busquei uma forma de aquecer a água eletricamente. É fundamental para um processo desses que a panela seja elétrica.

 

A primeira pergunta que me fiz foi: Qual a potencia que preciso para aquecer com eficiência uns 30 litros? É claro que na internet ninguém da dicas o suficiente para se saber esses detalhes. Tive que pesquisar e aprender. Cheguei a conclusão que para essa quantidade de água, ia precisar de uns 3500 Watts. Acho que para uma panela de 45 litros, 4000 Watts são mais que suficiente.

 

Consegui no Mercado Livre um cara que fabrica resistências e nele eu comprei as que aparecem no meu vídeo. Depois disso me preocupei com a bomba de recirculação. Aqui eu tive dificuldades. Bombinha de maquina de lavar não aguenta água fervendo e não aguenta ficar várias horas ligada, além de não ter a força que precisamos para essa panela. Tem umas bombas de maquina de lavar pratos que podem até servir, eu até comprei uma no ML, mas não achei fácil fazer a adaptação para ficar presa na panela. Comecei a ficar preocupado pensando que não ia conseguir uma que servisse, quando lembrei que poderia pesquisar em sites no exterior. Na Amazon.com eu achei um monte de bombas que poderia usar e que aguentaria alta temperatura, mas elas não são vendidas para o Brasil. Aí encontrei a que eu uso que é uma bombinha de recirculação de água quente para painéis solares. A vantagem dessa bomba é que além dela ser forte na medida que eu precisava, o rotor dela é de imã e por isso ela pode rodar várias horas sem parar. Ela é feita para ficar ao sol e rodando em quanto tem luz solar. Dei a sorte de conseguir comprar essa. Custou 70 dólares e os impostos ficaram em mais ou menos 60% do preço. Foi caro.

 

Essa bomba chegou em janeiro de 2013 e então pude começar a fazer a montagem dela na panela.

Ainda no final de 2012 eu comecei a procurar o controlador que ia ligar e desligar a resistência da panela. Descobri no Mercado Livre que existem vários modelos. Pensei em usar um que eu pudesse programar e ele aquecesse a água até uma temperatura por um tempo, depois eu mudava o programa para a próxima temperatura. Isso ia me deixar preso ao processo porque ia ter que ficar programando a próxima rampa, mas pelo menos não ia ter o problema que temos quando usamos o fogão. Consegui a dica de que o controlador MC2384 da Metaltex é um controlador que controla rampas (aquecimento até uma determinada temperatura) e patamares (ponto em que uma temperatura deve ficar por um determinado tempo). Ele tem até 16 programas para fazer isso. Para cerveja, com 4 temperaturas, a gente gasta 8 programas.

 

É claro que eu não nasci sabendo programar esse controlador, mesmo tendo o manual dele, mas descobri que podia contar com o auxílio da engenharia do fabricante e fiz isso. Lá tem uma engenheira chamada Thalita com quem troquei 16 emails até aprender a programar a coisa de forma aceitável. Tem muitas variáveis e, até a gente aprender, a coisa é complicada. A vantagem é que se alguém souber, pode fazer a programação e nos enviar o controlador programado ou ainda dar o passo a passo do que a gente precisa fazer para o nosso caso em especial.

 

Depois de tudo programado e com a bomba funcionando, tive a dificuldade de fazer a vedação entre o fundo das duas panelas. A panela do meio é onde fica o malte e é onde a bomba força a água a subir. Ela sobe até transbordar. Se não houver uma boa vedação entre as duas panelas, a água sai por baixo e não transborda. Na panela alemã tem um anel de silicone que faz essa vedação, como aqui a gente não tem isso, eu comprei um pedaço de silicone desses que usam em prensas de transfer para camisetas e colei no fundo com silicone. Achei esse material todo no Mercado Livre.

Quando tudo funcionou com água, fiz o primeiro teste com malte e a bomba funcionou legal. A filtragem pode melhorar e a próxima brassagem que eu for fazer, vou colocar o malte em um saco de musseline de seda. Essa tecido é barato (custa uns 7 reais o metro) e é bem fino. No meu vídeo aparece um pedaço que eu usei. Com o malte todo em um saco desses, a filtragem vai ficar muito boa.

 

Concluindo o texto, apresento as vantagens que encontrei com esse equipamento.

 

Uma delas é a de poder usar eletricidade ao invés de gás. Nem todo mundo tem um fogão só para fazer cerveja e é triste descobrir que o gás acabou meia hora antes da fervura terminar. Alguma coisa de errado vai dar.

 

Outra vantagem, que falo no vídeo, é a tal da eficiência térmica. No fogão perdemos muito calor, porque o aquecimento acontece de fora para dentro. Temos que aquecer a parte de fora da panela para a parte de dentro ficar quente. O resultado disso é que só aproveitamos 27% do calor gerado.  Já no processo elétrico, como a resistência fica dentro da panela, 70% é aproveitado e isso ainda pode melhorar se a gente conseguir isolar as perdas térmicas.

A outra vantagem é que como o processo é automático a gente não precisa ficar ali “chocando” a panela. Coloco a coisa para funcionar e vou viver a vida. Em um dia de brassagem o que não falta é coisa para se limpar. Temos que limpar o que vai sujando e o que ainda vai ser usado. Enquanto a gente trabalha, a panela vai preparando o mosto.

 

A outra vantagem é que o tempo que se usa é continuamente aproveitado. No processo normal, quando a gente começa a fazer a recirculação, o processo para. Não podemos ligar o fogo porque se não desanda tudo. Nesse processo não tem recirculação externa. A gente só tem o trabalho de tirar a panela do meio com o bagaço e jogar um pouco de água quente para lavar o malte. Na verdade a intenção não é lavar o malte e sim ajustar a quantidade de água, porque nem sempre da para você colocar a água toda que a brassagem vai precisar. E o melhor é que enquanto você coloca a água e o bagaço pinga, a panela já está levantando a temperatura para a fervura.

 

A outra vantagem é que eu já vi gente com aquelas torres de panelas, cada uma acima da outra. Isso consome um espaço grande. O fogão faz o maior barulhão e esquenta o ambiente pra caramba. Com essa panela a gente só precisa de uma mesa, e uma tomada que aguente o consumo da resistência. Não faz praticamente barulho, principalmente no momento em que o fogão mais faz barulho, que é na fervura.

 

O projeto não é barato. Se bobear eu devo ter gasto uns 2 mil reais com essa panela, mas o equipamento cervejeiro com 3 panelas, fogareiro e mais toda a tralha que se compra não fica por muito menos que isso. Vale a pena?

 

No meu caso eu nem consumo tanta cerveja. A maioria que eu faço, dou aos amigos e vizinhos. Acho que a intenção era desenvolver uma coisa que pudesse fazer cerveja parecido com aquela maravilha alemã e deu certo.

Como eu, acredito que existem várias pessoas que conseguirão fazer uma panela parecida. Os detalhes não são fixos e cada um pode aprimorar de acordo com suas ideias. Acho que dei alguns detalhes que já vão evitar muito os erros e gastos desnecessários.

 

Só terminei meu trabalho em março de 2013, mas agora acho que qualquer um, com todos os materiais e com tempo, pode fazer uma parecida com umas 3 semanas de dedicação.

 

Por: Alexandre Guimarães Christianes – transforline@gmail.com