por: Bernardo Couto

 

Falar em cervejas extremas é quebrar limites, ousar, inventar. Legal, bacana. Mas tem uns caras acham isso pouco, querem o extremo. Pois certo dia, navegando pela timeline do Facebook, me deparo com a foto de uma cerveja caseira com 1200 IBUs. Caceta, 1200 IBUs??? Era do cervejeiro caseiro gaúcho Thiago Santos, que depois me ofereceu uma garrafa. E semana passada foi dia de degustar este tapa na cara até dos mais lupulomaníacos.

 

A inspiração de Thiago foi a Hardcore IPA. Se uma cerveja de 120 IBUs pode ser equilibrada e deliciosa, pensou ele, por que não tentar uma com 1200? Para quem não sabe, IBU significa Internacional Bitterness Unit, ou seja, escala de amargor. A título de comparação, uma Skol da vida tem na casa de 10 IBUs. Já uma pilsen tcheca, na casa dos 30-35 IBUs. Uma Colorado Indica beira os 45. A Perigosa Imperial IPA tem 100 IBUs. Pois a Bandit, além de 8% de álcool, se propôs a chegar a 1200!

 

 

A receita dela é bem simples, como passa Thiago, que torce para que algum psicopata hophead que nem ele tente aperfeiçoar:

  • foram 7 maltes, 1,75Kg de Columbus 60′, 0,5Kg Galena 60′ e Cascade para Dry hopping

  • OG 1.087 / FG 1.026

  • 35 litros na mosturação, mas 10 litros perdidos no trub

  • restou pouco menos de 25 litros de cerveja final

 

A garrafa, long neck, não é individual não. Ela é muito agressiva, claro, e foi dividida com outros cervejeiros, como Nicholas Bittencourt e Antonio Bander. Todos estavam ansiosos para provar a cerveja mais lupulada que já tivemos acesso. Logo ao abrir a garrafa, vedada com cera sobre a tampinha, o aroma é semelhante ao de abrir um saco de lúpulo lacrado. E sente-se isto de muito longe. A quantidade de lúpulo é tão grande que os resíduos dele na garrafa acabaram por turvar a cerveja. O ideal seria deixar ela muito tempo em pé e imóvel, mas não tivemos como, mesmo com o máximo de cuidado. No sabor, lúpulo! Parece que foi colocado um pellet na boca de tão marcante. E só ele aparece, como não poderia ser diferente. No final, um amargo forte mas nada tão absurdo. Dizem que a partir de um certo amargor, por volta dos 100 IBUS, não se há mais distinção. É por aí mesmo.

Bandit: o verdadeiro chazinho de lúpulo

Para Antonio, também sommelier de cervejas, valeu a capacidade do cervejeiro caseiros de explorar os limites. “Algumas vezes, acertamos a mão e fazemos algo maravilhoso. Outras porém… A Bandit 1200 IBU está nessa linha tênue. Afinal, ultrapassa os ditos limites do amargor detectado pelo paladar humano. Mas, a cada golada você claramente sente o amargor tomar conta de todos os espaços da boca. E talvez por isso mesmo, ela cumpra o seu papel imaginado pelo cervejeiro, que foi de testar os nossos limites”, afirma.

 

Nicholas, do blog Goronah, também ressalta esta busca eterna do cervejeiro caseiro pela ousadia. “Uma cerveja com 1200 IBUs certamente extrapola muitos limites que conhecemos, até mesmo nossa capacidade de sentir ou apreciar o amargor da cerveja. Como lupulomaníaco, adorei a experiência, mas fica como uma experiência única pra mim, pois não me veria fazendo uma cerveja como essa. Ao mesmo tempo não negaria um gole se surgisse outra na minha frente!”

 

Thiago, o maior lupulador do Brasil?

Thiago, o criador do monstrinho, confirma que é uma cerveja para beber em pequenas quantidades. Para ele, o resultado ficou dentro do esperado e avisa que ela está melhorando sensivelmente com o tempo. Apesar de não planejar repetir tão cedo a receita, ele dá dicas para um próximo aventureiro: “hoje se fosse modificar a receita faria mais alcoólica, beirando os 13%, com FG de 1.038 por aí para equilibrar mais, deixar quase um licor”. Ele também recomenda que não seja feito o whirpool, devido à imensa quantidade de trub e avalia que um hop bag poderia ajudar neste quesito, utilizando durante a fervura.

 

Thiago, levando a experiência a fundo, mandou fazer uma análise da cerveja e o resultado é surpreendente.  Foram registrados 175 IBU, analisado por destilação. “Não sei se a metodologia estava preparada para tanto iso alfa ou o rendimento na fervura foi extremamente inferior. Foram quase 2Kg de lúpulo para 35 litros de mosto, acho difícil ter apenas 175 IBU, mas de qualquer forma chega a um nível que não se sente mais nada mesmo”, revela. O resultado chamou atenção até do técnico responsável, como destaca o cervejeiro gaúcho. “Essa dúvida da metodologia partiu do próprio laboratório que analisou, pois ela foi criada para o padrão de mercado e não assim fora do comum”.

 

E agora, qual será o próximo lupulomaníaco que vai brincar de lupular cerveja caseira em quantidades industriais? Eu, Nicholas e Antonio estamos aguardando doações de garrafas!